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Mônica

Hoje foi não foi um dia fácil, corri meio sem rumo, desacreditado, honrando compromissos que não pareciam se encaixar, seguindo o fluxo, deixando me levar. Fiz mais do que pude, falei mais do que sei, o tal peso da vida adulta. Já passa das 11, poderia escrever que estou sentado num sofá de couro, as luzes da cidade sobre mim, uma taça de vinho repousando sobre minhas pernas, uma fotografia perfeita para textos perfeitos. Mas minhas polaroides são borradas. Estou rencostado meio de lado, as costas doem, virei chácaras de café, relutante em dormir por essa noite, e te encontrar outra vez. Não vou mentir das vezes que pensei em você, das muitas vezes que meu coração saltou garganta afora ou ver seu nome cintilando no vidro fosco, e todo o circo que armei tentando agradar. Eu não sei onde quero chegar. Existe uma vida antes e outras dez depois de nós, ainda assim você não sai do meu sentimento. Ah, piegas, coisa de escritor romântico, que busca palavras bonitas para o ser amado. Coisa n…
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Gatilho

Aí está a história de um homem. Era uma história muito engraçada, não tinha enredo, não tinha nada. Um homem que a única certeza que tinha era as incertezas que o movia, perguntas sem resposta, inseguranças sem razão. E seu maior medo, a falta de certeza, não ter razão. Queria voar sem tirar os pés do chão. Ver além, através. Colher certezas, ouvi-las. Por isso ele andava. Caminhava pelos dias, passeava pelas horas, via o que não se vê, de olhos bem abertos, dizia o que não devia ser dito, sentia o indizível, se acreditava impossível. Tanto quanto impulsivo, expansível, imprevisível. Dava a cara a tapa. A cara, a face, a outra, o corpo, a alma e o coração. De tanto apanhar perdeu o medo. Doer, doía, mas fazia parte. Se atirava em cataratas, enquanto buscava o tédio das águas mansas. Falava de si com a destreza de um bom conhecedor. Falava. Falava quando só precisava ouvir. Buscava. Devoto de Nosso Senhor Jesus Crítico, se dizia too cool, e se morria e se matava a cada novo soluço. Nã…

Alumínio

Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quere…

Vitamina C

Há muito minha especialidade pareceu revisitar o passado, vasculhar antigas entrelinhas em busca de algo que passou despercebido, algo que não foi dito, mas que ali estava.
Há muito tentei esquecer e me forcei a lembrar, tarefas tolas demais para homens como nós, venhamos e convenhamos, sem falsas modéstias, deixamos as eiras e beiras de lado.
Há muito não te conto por onde andei, as bocas que beijei, os corpos que tomei, daqueles que fui, ou que mais ou menos fingi ser. Nem bem posso dizer que me cansei dessa vida fugaz, precisaria de mais uns bons punhados de juventude para cansar e descansar. Imagino sua cara de zombaria, ora pois, somo tão jovens, as rugas que adornam nossa cara os cabelos brancos que decoram nossa barba, são meras lembranças de que o tempo não para, Cazuza, em algo devia de ter razão.
Me peguei por esses dias, em meio a reflexões de liquidificador, remoendo velharias, antigos remorsos, velhos hábitos, promessas não cumpridas do réveillon de 2006. Encontrei você …

Metonímias e Aliterações

Passeio pelas estações ouvindo grunhidos repetitivos semi nocivos, até que me pego cantarolando trechos de uma música qualquer daquela dupla pop que ninguém lembra o nome, o rosto, ou a poesia, não que fizesse alguma diferença. Hoje eu acordei olhei no espelho e não me vi. Horas a fio, o celular ferve por entre as mãos, silencioso e inquieto. Ensaiei centenas de maneiras de dizer um simples Hello, i want you let me jump in your play, mas me perdoe se eu não sei jogar, ou se talvez o saiba além das regras que insisto em (não) quebrar. Um joguinho é até divertido quando você está por perto. Penso que irei dobrá-lo, deixar me bater, vamos lá, querido, fique mais um pouco. I'll get him hot, show him what I've got. Revezo em encarar aqueles olhos, desejar aquela boca, e decifrar todos os teoremas fundamentais do universo. E daí que minh'alma segue num loop involuntário, divagando em diferentes infinitos... 
I need a hit, baby gimme it, it's dangerous I'm loving it, balb…

Sobre meias e palavras

Sobre tudo, nada mais tenho a dizer. Se me olhar nos olhos vai poder enxergar a linha, tênue, frouxa, entre o desalento e o irremediável. Sobre as páginas borradas, entrelinhas desenhando delírios em forma de confissões, paranóias aceleradas. Os anos passam por entre os dedos, a caneta rola por entre os lábios. Mais um verão em que escrevo para me manter vivo. Tormenta após tormenta, as palavras não são as mesmas, os propósitos tampouco. A proposito e sem propósito, de propósito fingimos entender. Ou todo o inverso ínfimo do que (não) foi dito. Escrevo para matar. Não quero fazer sentido. Não sou escritor, não sou poeta. Como uma criança lançando palavras ao vento, espalho areia sobre o mar.  Escrevo para não esquecer. Apenas perdoe meus neologismos e desaforismos, minhas entrelinhas, e toda a metalinguagem. Deixo o verão pra mais tarde, e até lá vou me desdobrando ao entorno. Gravado a esmo.

Domingo

A rotina se repete, sem espaços em branco, nem enxertos. Domingos são sempre os mesmos. Polaroides das semanas passadas, tons pastéis banhados em saudades do futuro, cirandas, cachimbos, adedanhas e gnomos. É fantástico. A porta se abre e se fecha sem que você entre, sem que nada aconteça. E as possibilidades de darmos valor a este vazio híbrido tem a voracidade de uma manhã de segunda, reverberando as filosofias de quinta, lançadas à mesa na sexta sob a luz de uma constelação solitária. Já/Ainda é domingo, quase segunda, mas desta vez não seremos psicóticos em abafar pensamentos traiçoeiros que inundam nossos lençóis. Do lado de dentro, imagino a mesma cena refletida, remontada, dois corpos lançados a esmo, uma xícara de chá, ou duas, uma voz, ou duas, um caderno, ou dois, um jardim, ou dois. Nós dois. Entre nós. Nós. Geralmente me permito tais sentimentalismos baratos, desorquestrados, mas não nesta cena. Não me perdoe os clichês, jogado no sereno, escrevendo devaneios. Não durará, …