22 de novembro de 2016

Mônica

Hoje foi não foi um dia fácil, corri meio sem rumo, desacreditado, honrando compromissos que não pareciam se encaixar, seguindo o fluxo, deixando me levar. Fiz mais do que pude, falei mais do que sei, o tal peso da vida adulta. Já passa das 11, poderia escrever que estou sentado num sofá de couro, as luzes da cidade sobre mim, uma taça de vinho repousando sobre minhas pernas, uma fotografia perfeita para textos perfeitos. Mas minhas polaroides são borradas. Estou rencostado meio de lado, as costas doem, virei chácaras de café, relutante em dormir por essa noite, e te encontrar outra vez. Não vou mentir das vezes que pensei em você, das muitas vezes que meu coração saltou garganta afora ou ver seu nome cintilando no vidro fosco, e todo o circo que armei tentando agradar. Eu não sei onde quero chegar. Existe uma vida antes e outras dez depois de nós, ainda assim você não sai do meu sentimento. Ah, piegas, coisa de escritor romântico, que busca palavras bonitas para o ser amado. Coisa nenhuma. Tenho às mãos uma série de redemoinhos, peças deslocadas de um quebra cabeça ilógico, fatos que põem a prova o amor que eu acreditei sentir, sei lá, será? Nem você sabe, nem deveria. Uma série de nuvens pairam sobre o céu, afastem todas as metáforas de mim, é apenas um céu nublado indicando uma madrugada indecisa. Das tantas canções que embalam meu sono agitado, de todas acordo lembrando você. E o sabor de alho e óleo que aprendi a apreciar, junto às nossas cervejas em plena quarta feira. É divertido dançar com você. Mas deixa eu escolher a música, essas paredes apanharam demais pra tolerar frações desleixadas de um amor qualquer em busca do momento perfeito. É apenas divertido brincar com as possibilidades do seu texto, enquanto você franze a testa sem entender minhas metonímias e aliterações, meus parágrafos repletos de referências e reticências. Você faz que entende, todo desentendido, me tem, e se diverte com as verdades que criou pra si. Dou de ombros e sorriu pras estrelas escondidas entre aviões. Consegue ouvir? Eu não teria vocação para apenas mais uma foda, mesmo que nossas mensagens trocadas na alta madrugada apontem às avessas. Ainda que eu saiba onde você mora, entre rampas e florestas, e espreite a luz do seu apartamento dia sim, dia também. Caberia mais um perdão no texto, meras firulas linguísticas. Isso é o que o amor faz, encontra o erro.

27 de junho de 2016

Gatilho


Aí está a história de um homem. Era uma história muito engraçada, não tinha enredo, não tinha nada. Um homem que a única certeza que tinha era as incertezas que o movia, perguntas sem resposta, inseguranças sem razão. E seu maior medo, a falta de certeza, não ter razão. Queria voar sem tirar os pés do chão. Ver além, através. Colher certezas, ouvi-las. Por isso ele andava. Caminhava pelos dias, passeava pelas horas, via o que não se vê, de olhos bem abertos, dizia o que não devia ser dito, sentia o indizível, se acreditava impossível. Tanto quanto impulsivo, expansível, imprevisível. Dava a cara a tapa. A cara, a face, a outra, o corpo, a alma e o coração. De tanto apanhar perdeu o medo. Doer, doía, mas fazia parte. Se atirava em cataratas, enquanto buscava o tédio das águas mansas. Falava de si com a destreza de um bom conhecedor. Falava. Falava quando só precisava ouvir. Buscava. Devoto de Nosso Senhor Jesus Crítico, se dizia too cool, e se morria e se matava a cada novo soluço. Não era precipitado, era o precipício. Era saudade. Abusava e fazia pouco caso da sua própria sanidade mental. Delirava em paranóias. Réu confesso. Incurável e incorrigível, amava.

10 de junho de 2016

Alumínio


Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quereres, só necessito da sua calma, mais que nada. Escuto por um instante aquilo que já não precisa ser dito. Nomes, endereços, telefones. Dedos cruzados e lábios cerrados. E quem irá dizer que não existe razão?

13 de janeiro de 2016

Vitamina C


Há muito minha especialidade pareceu revisitar o passado, vasculhar antigas entrelinhas em busca de algo que passou despercebido, algo que não foi dito, mas que ali estava.

Há muito tentei esquecer e me forcei a lembrar, tarefas tolas demais para homens como nós, venhamos e convenhamos, sem falsas modéstias, deixamos as eiras e beiras de lado.

Há muito não te conto por onde andei, as bocas que beijei, os corpos que tomei, daqueles que fui, ou que mais ou menos fingi ser. Nem bem posso dizer que me cansei dessa vida fugaz, precisaria de mais uns bons punhados de juventude para cansar e descansar. Imagino sua cara de zombaria, ora pois, somo tão jovens, as rugas que adornam nossa cara os cabelos brancos que decoram nossa barba, são meras lembranças de que o tempo não para, Cazuza, em algo devia de ter razão.

Me peguei por esses dias, em meio a reflexões de liquidificador, remoendo velharias, antigos remorsos, velhos hábitos, promessas não cumpridas do réveillon de 2006. Encontrei você meio a essa bagunça, imagine minha surpresa. Não, não é novidade a falta que a falta faz, mas pareceu algo um tanto sem sentido., como tudo que te remete.

Sabe os planos de rir disso tudo em Paris, bem, estou rindo na praia, meio a uma multidão de gente não tão fina, não tão elegante, mas cruamente sincera. Parece que estamos bem. Nós e nossos novos jogos de acasos, planos e promessas, amores forjados, e esses dramas que nos cabem. Eu vou esperar, talvez, a primavera.

19 de abril de 2015

Metonímias e Aliterações


Passeio pelas estações ouvindo grunhidos repetitivos semi nocivos, até que me pego cantarolando trechos de uma música qualquer daquela dupla pop que ninguém lembra o nome, o rosto, ou a poesia, não que fizesse alguma diferença.
Hoje eu acordei olhei no espelho e não me vi.
Horas a fio, o celular ferve por entre as mãos, silencioso e inquieto. Ensaiei centenas de maneiras de dizer um simples Hello, i want you let me jump in your play, mas me perdoe se eu não sei jogar, ou se talvez o saiba além das regras que insisto em (não) quebrar. Um joguinho é até divertido quando você está por perto. Penso que irei dobrá-lo, deixar me bater, vamos lá, querido, fique mais um pouco. I'll get him hot, show him what I've got.
Revezo em encarar aqueles olhos, desejar aquela boca, e decifrar todos os teoremas fundamentais do universo. E daí que minh'alma segue num loop involuntário, divagando em diferentes infinitos... 
I need a hit, baby gimme it, it's dangerous I'm loving it, balbucio numa performance tão tosca quanto um dançarino do cantor Leonardo.
Oops, I did it again!
I wanna dance with somebody, I wanna feel the heat with somebody.
Faça algo, outra vez essa voz vindo de todos os lados, sem fazer o menor sentido. Eu não quero ser aquele que ri mais alto ou que nunca quer estar sozinho. Não quero ser aquele que envia mensagens às quatro da manhã. Eu estou descobrindo que não quero que minha história termine assim.

18 de março de 2015

Sobre meias e palavras


Sobre tudo, nada mais tenho a dizer. Se me olhar nos olhos vai poder enxergar a linha, tênue, frouxa, entre o desalento e o irremediável. Sobre as páginas borradas, entrelinhas desenhando delírios em forma de confissões, paranóias aceleradas. Os anos passam por entre os dedos, a caneta rola por entre os lábios. Mais um verão em que escrevo para me manter vivo. Tormenta após tormenta, as palavras não são as mesmas, os propósitos tampouco. A proposito e sem propósito, de propósito fingimos entender. Ou todo o inverso ínfimo do que (não) foi dito. Escrevo para matar. Não quero fazer sentido. Não sou escritor, não sou poeta. Como uma criança lançando palavras ao vento, espalho areia sobre o mar.  Escrevo para não esquecer. Apenas perdoe meus neologismos e desaforismos, minhas entrelinhas, e toda a metalinguagem. Deixo o verão pra mais tarde, e até lá vou me desdobrando ao entorno. Gravado a esmo.

1 de março de 2015

Domingo


A rotina se repete, sem espaços em branco, nem enxertos. Domingos são sempre os mesmos. Polaroides das semanas passadas, tons pastéis banhados em saudades do futuro, cirandas, cachimbos, adedanhas e gnomos. É fantástico. A porta se abre e se fecha sem que você entre, sem que nada aconteça. E as possibilidades de darmos valor a este vazio híbrido tem a voracidade de uma manhã de segunda, reverberando as filosofias de quinta, lançadas à mesa na sexta sob a luz de uma constelação solitária. Já/Ainda é domingo, quase segunda, mas desta vez não seremos psicóticos em abafar pensamentos traiçoeiros que inundam nossos lençóis. Do lado de dentro, imagino a mesma cena refletida, remontada, dois corpos lançados a esmo, uma xícara de chá, ou duas, uma voz, ou duas, um caderno, ou dois, um jardim, ou dois. Nós dois. Entre nós. Nós. Geralmente me permito tais sentimentalismos baratos, desorquestrados, mas não nesta cena. Não me perdoe os clichês, jogado no sereno, escrevendo devaneios. Não durará, as orações são mais fortes, mais altas, mais bravas. Porém, não trabalho com hipóteses. O natal ainda tarda a chegar. Por descuido ou poesia, sem ressalvas em voltar a me decepcionar. Um último pedido antes de fechar os olhos e partir: traga o mundo mais perto de onde quer chegar. Abre e fecha aspas. Hoje as palavras dão preguiça e dispersão. Eu escrevo pra alguém que não lê.

13 de janeiro de 2015

Bacon


Você me pede outra história baseada em fatos reais. Dou de ombros e finjo não reparar no sorriso encabulado que me escapa pelas beiradas do rosto. Nem bem chegastes, e querendo tudo, revira as gavetas, rabisca as paredes, me toma o lençol, rasga o silêncio, faz-se dono. E eu que pensava ser todo meu.
- O que você quer?
- Brócolis com bacon.
Gira os braços, aperta os lábios, e enquanto finge não me ver, aumenta o rádio, acompanha os desenhos que o som rabisca na brisa fria de abril, e acende o farol. A rua ao redor acompanha os movimentos dos nossos dedos, como marionetes enfeitadas, bonecos de ventríloquo. Movimentos randômicos nos dão um quê excêntrico. Você esboça uma tentativa tosca e preguiçosa de evadir-se. Te seguro pelas mangas, arranho tua nuca, suspiro quase em oração.
- Fica!
- Que?
- Quero que você fique.
- Por que?
- Porque sim.
- Porque sim, não é resposta.
- Não posso.
- Por que?
- Porque não.
- Porque não, não é resposta.
As horas se calam e caminham sem que estejamos presentes em nossos assentos. Sem acentos, vírgulas, ou qualquer sinal de pontuação viva entre nós. Apenas reticências. Repito, aflito. Volta, deita aqui, deixa eu te proteger, prometo em tom de súplica, buscando me esconder nos espaços vazios das entrelinhas do meu torpor. Já não importa a vida que inventaram pra nós. Não nos importa o que abandonamos do outro lado da porta. Você me encara com olhos inquietos de poeta pós-moderno, e de repente se torna impraticável soletrar teus pensamentos. Imagino como seria plantar uma muda de silêncio nesse teu nobre desassossego. Pintar o teu nariz pra gente brincar de ser feliz. Deixar as luzes da Avenida São João nos guiarem. Prometo não tentar te consertar. Você balbucia meias palavras, ri dos meus desenhos, satiriza meus fatos irreais, com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, some em mim.

8 de janeiro de 2015

Balada do Amor de um Homem Só


Ensaiei infinitas formas de calar o silêncio que se implantou entre nós desde o segundo suspiro, o último. Não é de se estranhar que talvez estranhes meu estranhamento, nós estamos exatamente onde deveríamos, disse em voz alta sem nenhuma noção de tempo, lugar e espaço. Me vi desdobrado em versos, prosas e poesias, numa sinfonia de ruídos inocentes, sinto que deveria desenhar minhas unhas no quadro negro, ao menos uma última vez. E antes de te ver partir, me dilacerar a ponto de escancarar até o último centímetro de alma. Não fui capaz. Das últimas horas você foi meu melhor e meu pior. Eu fui teu céu e teu inferno. Hoje não passamos de retratos recortados de um passado, desde sempre, sem futuro. Atravessamos a rua na tentativa vã de esconder o que foi deixado pra trás. Dizem que nesta vida somos capazes de amar até duas vezes, você foi meu último tiro, o mais alto. Me esforço pra não esquecer tua voz, teu sorriso, tuas manias. Teus pontos e vírgulas e exclamações. Teus olhos cheios de interrogações. Suas reticências. Fecho os olhos em busca de mais um minuto, um beijo de boa noite, um novo apocalipse. Talvez você insista em não lembrar, desculpa, uma última vez, eu só precisava saber quanto durará este último suspiro.