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Bom dia

Estranhamente a noite havia sido de um sono profundo, talvez pela primeira vez a tal rotina havia sido quebrada, quem sabe fosse um bom sinal.
Estava aproximadamente há uma semana parado, quem sabe numa tentativa de estabilizar o emocional, não saberia se de alguma forma aquela atitude iria surtir efeito, afinal ainda se encontrava receoso tanto com o que ainda estaria por vir, quanto com a reação daqueles que conviviam com ele. Desta última aflição não teve muito a fazer, simplesmente suas atitudes de desaparecimento súbito e fuga contínua entregavam suas intenções, e como não podia ser diferente, deixou assim ficar subentendido.
Não se fazia necessário o uso do despertador naquele dia, mas por via das dúvidas o mesmo encontrava-se programado pontualmente para o meio-dia. Levantou-se antes mesmo de qualquer som que viesse a atrapalhar seu sono, acreditava que ainda fosse cedo, mesmo que torcesse que ao menos passasse das oito, dito e feito, os ponteiros do relógio da cozinha marcava com certa imprecisão 9h50, em sua cabeça ainda restara dúvidas da hora, tal relógio nunca apresentava a hora certa, por vezes adiantado, outras atrasado, era um fenômeno que até a física quântica relativista de não sei das quantas abominava.
Tomou seu café com leite, como quem degustava uma sopa, tudo bem, sem a colher, fazia como se bebesse tal sopa, volta e meia dirigia-se ao prato e selecionava a bolacha que mais lhe agradasse ao tato e aos olhos, sem tanto sucesso no paladar acabava por desistir de continuar aquela seleção. Sentou-se no sofá e esperou o tempo passar, estava frio, como já era de praxe, o sol ardia no terraço, mas naquela sala escura, nenhum tipo de calor se fazia presente. Julgou ter se passado cerca de meia hora, tomou um copo de água e dirigiu-se ao quarto, sondou o espaço fazendo uma análise minuciosa do que faria agora, nunca antes havia participado desta rotina, era seu primeiro dia, porém optou por realizar atividades que já fossem de seu conhecimento, ligou o computador, e mesmo depois de visitar alguns blogs, orkut, twitters e emails se deu conta de que ainda havia uma considerável parcela de tempo, checou sua mochila, abriu o armário e sentou-se na cama na ilusão de escolher o traje mais adequado para a situação, deveria ser algo não muito sério, nem casual demais, algo na medida certa que conciliasse o que até então julgava fazer parte de sua personalidade ao papel que a partir daquele momento iria representar, chegou a conclusão de que não existia algo que desse conta de suas expectativas, mas mesmo assim selecionou o que julgou ser adequado, depois de algumas provas, escolheu no jogo da moeda. 
Mesmo sem fome, o almoço estava a sua espera, era básico, porém era o que havia de melhor para seu reduzido paladar, arroz branco, feijão branco, carne de sol, batata frita, e como acompanhamento um caprichado copo de suco de laranja, claro, não poderia correr o risco de cair de sono tomando maracujá. O banho como sempre foi rápido, não ousou lavar o cabelo, receava que este não se comportasse, não que no momento estivesse agradável, porém estava ao menos tolerável. O sabonete de aveia arranhava sua pele de tal forma que se sentia verdadeiramente limpo, no rosto apenas um tonificador e um hidratante com protetor solar, não gostava muito dessas "frescuras", mas era melhor se cuidar, não desejava uma cara de 70 aos 20. Duas borrifadas do ativo perfume que o acompanhava desde o início do ano, vestiu-se, lembrou-se dos dentes, não há nada mais irritante do que escovar os dentes, principalmente depois que a dentista mandou-lhe tomar cuidado, afinal que tipo de cuidados seriam esses, optou por ter o mínimo de contato possível com o tal dente, não desejava dar entrada na emergência com o diagnóstico de "dente fraturado". 
O carro já dava sinais de vida na garagem, o que significava "corre, antes que alguém morra", não havia mais tempo para arrumações, era agora ou nunca, na verdade estava mais para um "agora ou daqui a pouco", desceu numa velocidade incerta já que não havia ninguém medindo, entrou no carro, regulou o ar condicionado, despediu-se da casa, e desejou que aquela não fosse a pior tarde de sua vida.

Comentários

  1. Risos!
    Como é degustar café com leite como se fosse sopa?! Vou fazer uma profunda reflexao sobre o assunto. Rsrsr!
    Amei...

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  2. é uma analogia complexa, é preciso analisar todos os fatores sociais implicitos neste monologo

    ahsuahsuhaus

    pseudo please ;*

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  3. Você escreve muuuuuuuito bem Lipo! Babei! O_O *indo ler posts antigos*

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Gostei do blog, do texto e da maneira como vc escreve. Parabens!

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  6. Que dizer? Uma exata, precisa e, acima de tudo, poética, descrição de uma nova rotina. Espero que ela seja excitante e divertida. :)

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