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Viagem ao centro da Terra


Nem tanto ao céu, nem tanto a Terra. A fachada já era conhecida, bem como vagamente a entrada, como poderia esquecer aquela outra fatídica tarde. Já passara das treze horas, seu estômago dava giros de 360 graus, virava do avesso, seu metabolismo mais acelerado que nunca, apenas sintomas físicos de seu grande mal mental.
Um último suspiro, despediu-se e desceu do carro, em meio seu alvoroço quase que foi atropelado, foi então que subitamente estalou em seu sub consciente, dabu, soltou aquele sorriso tímido onde mostrava um quarto dos dentes. Vendo que não havia mais como fugir, adentrou no prédio, esbanjava segurança e uma certa metidez em seu semblante. Foi quando se deparou com uma rampa bifurcada, ora será que havia alguma diferença de percurso, será que essa escolha influenciaria em algo importante. Instintivamente escolheu o lado mais movimentado, camuflando-se entre aquela gente toda, não queria ser notado, ao menos não ainda. Ao fim da descida, seu maior susto, uma ladeira imensa que parecia dar nos quintos dos infernos. Tremeu do dedo mindinho ao último fio de cabelo, pensando nisso, como será que estaria o cabelo, rezou para que estivesse tudo no lugar, checou a braguilha, afinal melhor não arriscar.
Desceu, desceu, desceu, desceu sem direção, sem saber pra onde ir. Resolveu ceder e pediu informação ao primeiro individuo fardado que encontrou pela frente. Daí então pôs-se a procurar a sala 30, segundo piso. Na hora não conseguiu imaginar como haveria um segundo piso, era mais provável que esta bendita sala fosse nas profundezas do subsolo. Em meio a rampas, escadas, e pessoas, muitas pessoas, encontrou o que procurava. Uma pequena multidão se aglomerava nas entradas das duas salas, aparentemente buscavam seus nomes nas listas anexadas nas portas. Na primeira tentativa, seu nome estava lá, o seu e o de mais sessenta pessoas. Empurrou a porta e quase que quebra o nariz, vibrou ao ver que não havia ninguém para presenciar aquela cena patética. Acomodou-se em uma das bancas selecionada minunciosamente, e daí só restara esperar alguém dar sinal de vida. Não demorou e dois seres, ainda tenho dúvida se "vivos", adentraram à sala, dois senhores um de cabelos brancos e pança de choop, outro coroa de meia idade metido a garotão, era realmente uma situação assustadora para alguém no início da vida, acredito não estar preparado para conviver diariamente num clube da terceira idade, sem preconceito algum.
Os "anciãos" se aproximaram e forçaram uma conversa, como sempre se obrigou a prestar o mínimo de educação, trocou duas ou três palavras. A passo do relógio imaginário, mais e mais pessoas adentravam, de início a predominância foi de "experiência", pouco depois o ambiente começou a se diversificar. Pontualmente às 13h30 um ser de terno e gravata se apresentou como o professor, sua feição era séria, porém simpática. Conversa vai, conversa vem, uma sirene estridente soou, o professor levantou-se como quem recebe um sinal de incêndio, e era o que parecia, evidentemente a emergência era outra, vinte minutos no cubículo de 10m² com sessenta desconhecidos, fácil pra pessoas com fortes indícios de fobia social. Felizmente sobrevivi sem maiores danos. 
Mais duas horas em sala, agora tento "aula" a respeito do "estado democrático", muito interessante na teoria, já na prática, prefiro não comentar(agora). Desta vez que estava conosco era uma mulher, dizia-se advogada e professora(óbvio), elegante, impecável da cabeça ao pés, usava um vestido roxo mais apropriado a um casamento que a aula, não posso deixar de comentar o seu leve ar de perua, no mais respeitoso e bom sentindo. Mais uma vez muito blá, blá, blá, e quando se aproximava da hora, preparei meu espírito, e ouvidos, para mais um berro do prédio. Espera em vão, o prédio havia ficado mudo, ou simplesmente não queria falar. 
A primeira atitude ao sair da sucursal do pólo norte, foi ligar para virem me buscar, temia passar horas na calçada, como prostituta na Pajuçara. Foi aí então que veio o susto, a pessoa mais improvável de estar ali, naquele momento, estava, prova viva da força do pensamento(eu tenho "o segredo"). E só esta pessoa seria capaz de me fazer descer outra vez à casa do cara lá de baixo, logo depois de voltar à superfície. De volta a superfície novamente uma motorista desequilibrada e descontrolada, assionava a buzina freneticamente, como se o mundo fosse acabar, quem era essa mulher? minha mãe.
Apesar do medo que me acompanha todas as vezes que estou no carro quando ela dirige, a volta para casa foi tranqüila, cheguei digamos que em segurança. E com a certeza de que essa não foi a pior tarde da minha vida.

Comentários

  1. volta as aulas na facul? haeioheiaohea

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  2. Pô, muito bacana esse texto!
    Viajei lendo ele.
    A mente de um ser humano é fantástica, onde vamos parar? rs.

    Muito bom.

    Abraço.

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  3. primeiro dia de aula, consegui sobreviver

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  4. VALEU PELO LAY LIPO *-*

    E mais uma vez... amei o texto. Estou sem cabeça para um comentário mais detalhado por conta do sono, mas eu simplesmente fiquei impressionada.

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  5. É, aulas (com muitas aspas) assim realmente são um convite à imaginação... é o único jeito de se livrar delas!

    De diferente, entre outras coisas, temos o fato de que nunca peguei carona com minha mãe (ainda bem, porque o único transporte que tínhamos lá em casa era uma moto; seria preciso muita coragem de minha parte...)

    Teu blog é legal, mas o fundo costuma dificultar o trecho por vezes... pense em clareá-lo mais; ou negritar a fonte. Creio que melhorará.

    Saudações!

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  6. Viajei no texto e lembrei do meu primeiro dia de aula na facul.
    Destaque pro seu ultimo paragrafo rs. Muito bom. Gostei do titulo.

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  7. Adorei...Super viajei lendo esse texto...
    Facul...facul...espero começar em breve!

    www.teoria-do-playmobil.blogspot.com

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  8. acatada as opiniões,e as devidas modificação já foram aplicadas. agradecido. e aberto a novas sugestões


    =D

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