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Sem limites

Já passara da meia noite quando resolveu sair para espairecer. Sua cabeça estava a mil, seu coração dilacerado, necessitava fugir dali. Não havia muitas opções, o adiantado da hora devia ser levado em conta. Era madrugada de sábado para domingo, ainda assim poucas pessoas na rua, em alguns bares pequenos grupos de pessoas conversavam, riam, berravam. Não sabia para aonde ir, caminhou à beira do mar. A areia fria, a água quente, paradoxo este que se repetia em seu interior. Encontrou um lugar mais afastado, uma pedra, próximo a um farol, sentou-se se pôs a admirar aquela paisagem à meia-luz.
O cabelo ao vento, as calças dobradas até os joelhos, camisa aberta, sapatos à mão. Reparou que ainda usara as roupas do trabalho, também como pudera pensar em trocar-se. Aninhou-se na pedra, que parecia abraçar-lhe, obteve ali o colo que estava a procura, em pouco tempo adormeceu. Algumas horas se passaram. Acordou com a água a salpicar em sem rosto. Estava tão leve, tão pleno, que julgou ter dormido dias seguidos. Abriu os olhos e a luz continuara baixa, sem nenhum raio a mais que ofuscasse sua visão. Verificou as horas, passava das cinco, e o sol ainda não havia acordado.
Levantou-se e tomou o caminho de volta pra casa, tentando lembrar vagarosamente da noite passada, sem nenhum sucesso. Sua memória não encontrava registros das últimas horas. Sequer conseguiu compreender como chegou à pedra. Sacou as chaves do bolso da calça, abriu a porta, entrou, não havia nenhum vestígio de presença humana. Quase que instantaneamente sua memória dava sinais, enquanto questionava de sua sanidade mental. Lembrou-se claramente da visão que teve, era uma luz forte, na varanda de seu apartamento, com uma voz doce e suave, repetia algo que não pode ouvir. Sentiu-se tocado pela situação, e por isso resolveu fugir, sem saber se poderia, sem saber se havia algum modo de esconder-se daquele fenômeno surreal.
Preparou o café da manhã, e em seguida tomou, nunca havia demorado tanto em uma refeição. Deitou-se na cama, seu corpo e sua mente, novamente gritavam, sentiu uma pressão intensa que o fez desmaiar. Acordou horas depois, e encontrou a mesma escuridão que deixara momentos antes. O relógio do criado-mudo marcava pontualmente meio dia. Dirigiu-se à varanda e se deparou com aquela multidão, que aos berros discutiam a situação. Onde está a luz? Não havia nenhuma expressão solar naquele dia. Nem sol nem lua, nem dia nem noite.
Ele tinha a resposta, sabia claramente o que estava acontecendo, ainda assim duvidou de sua sanidade. Julgou-se louco, mas estava acontecendo. Tudo da mesma forma como saberia que iria acontecer. E sabia que a visão da noite anterior era um último aviso. Não sabia mais como agir. Pressionado pela idéia de que tudo aquilo era responsabilidade sua, atirou-se da janela.
A multidão aglomerou-se em volta de seu corpo, agora estirado no chão, contornado por uma cor vermelha, ardente, reluzente. Pouco a pouco raios luminosos começaram a incidir sob a superfície de seu corpo. O sol estava de volta. Burburinhos e cochichos era a única coisa que se ouvia. A multidão não tinha a explicação, os mais céticos julgaram coincidência, os demais milagre. Mais ninguém desconfiara que aquela foi a mais bela história de amor já relatada, o homem que foi viver um amor solar, sem limites...

Comentários

  1. Ei lipo tenta colocar alguma imagem pra dar animo pra ler... blz...

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  2. Você escreve muito bem. Adorei o texto. =)

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  3. Adoro seus textos!

    www.teoria-do-playmobil.blogspot.com

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Há tudo a perder. Sincericide-se

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