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De Sol à Lua






"A vida é uma escalada, mas a vista é linda."



O dia estava quase amanhecendo. O sol no horizonte distante mandava sinais de fogo para aquecer aquela madrugada fria. Já passava das quatro da manhã, seus olhos pesados mal conseguiam se manter abertos. O corpo cansado, mais ainda a alma, ainda assim o sono não chegava.
Seus últimos dias não haviam sido dos melhores, estava sendo tomado por uma nuvem de impaciência incontrolável, sem explicação. Era tudo tão turvo, cinza, nada de preto no branco, cinza. Talvez por isso não conseguisse dormir, sua cabeça auto proibiu-se de descansar. Era um turbilhão, emoções, sentimentos, revoltas, traumas, e revelações. O que mais pesava em seu coração era o impacto que as últimas revelações haviam trazido para sua vida. Eram besteiras, mas não sem importância. 
A cortina já não impedia que a luz do sol se impusesse. O vento gélido da madrugada dava lugar a uma brisa leve, morna, como já não era a algum tempo. As lembranças pulsavam, como feridas infeccionadas, a dor de lembrar ia e vinha, tal como as ondas do mar. Seu corpo já não mais aguentava, como num ato súbito, caiu no sono, um sono curto, porém profundo. Em seus sonhos, aquela tarde de sábado foi revida, em todas as cores, perfumes, sons, tal como estavam presentes. Era como se não fosse sonho, era como se a ele fosse permitido assistir o que viveu, de um outro ângulo, desta vez em terceira pessoa.
O relógio marcava 15h56, o telefone imóvel sobre a mesa. Calculou mentalmente o tempo que levaria até chegar ao seu destino. Planejou meticulosamente cada detalhe, nada poderia dar errado, nem mesmo sabia a razão de exigir-se de tanto perfeccionismo. Pontualmente as 16h15 estava à porta da casa, receoso de tocar a cigarra, sacou o celular do bolso e ligou, do outro lado da linha um voz doce informara que já descia. Encontrou tempo para se recompor do trajeto, secou as gotículas de suor que sobre sua pele pairavam, respirou fundo, e lá estava ela, diante dele, abrindo o portão. Partiram para a orla, onde iriam apreciar o pôr-do-sol, ainda que este ocorresse do lado oposto, de qualquer forma, algum espetáculo a natureza lhes preparariam. Caminharam por toda a orla, cruzando praias, bairros, e até mesmo a lagoa, encontram um lugar mais afastado, discreto, ausente do movimento, mas não distante. Sentaram-se, como sempre ela se adiantou e pôs-se a falar de sua vida, seu namoro, seus planos, suas aventuras. Ele por vezes a interrompia, fazendo comentários delicados, e observações pertinentes. A cada palavra dela, ele buscava um gancho até estar a falar também dos últimos acontecimentos de sua vida. Ela admirou-se quando falou de sua recente confusão amorosa, ele encheu os olhos de lágrimas, por tantos outros motivos. Falaram dos caminhos que cada um estava seguindo. Compreensivos, incisivos, imperativos. Era feliz desfrutarem da companhia um do outro. Até mesmo para falar de assuntos mais delicados, amores que não deram certo, decepções pessoais, ainda que os temas fossem pesados, eram debatidos com tanta sutileza e beleza, que seu peso mal podia ser visto naquele instante. Quando se deram conta a lua, cheia, dividia o céu com os últimos vestígios solares...

Nesse momento acordou, com um sentimento de leveza, felicidade mesmo. Algo de bom que lhe fazia falta. Sentou-se a beira da cama, como quem tivesse se dado conta de alguma coisa importante. 


"Como pode ser? Até outro dia éramos crianças, e hoje... Ah, o que somos hoje? A gente cresceu, você de menina a mulher, eu de menino a homem. Não sei me portar, não estou pronto. É tudo muito diferente..."


Um certo ruido interrompeu seus devaneios, não conseguia identificar o que era, e logo mergulhou e novos devaneios.


"Mas... Mas... Mas...Ei! Calma, o que é isso? Vai andar para trás? Vai dar uma de imaturo novamente? As coisas mudaram, sim, mas e daí?! Tudo muda, você já não é mais o mesmo, não pode dar-se a esses mesmos pensamentos antiquados de outrora. Você bem sabe que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Aconteceu, e o que mudou?"


Um calafrio. Um vento frio quase que lhe congela a espinha. Jogou-se na cama, com um meio sorriso nos lábios, bochechas coradas. O sol já havia tomado seu espaço por completo. O dia estava quente. Passava das oito. Virou-se para o lado, viu em sua cama, a mulher que mais amou em toda sua vida, acariciou seu rosto, e ao passo que ela abria levemente os olhos, ele a beijou, pela primeira vez, como a tempos sonhara.



Comentários

  1. o retrato de quem ama é a cama, o lençol e o cobertor.

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  2. Que lindo, Lipo! Simplesmente amei o conto, você escreve com uma delicadeza que encanta! Continue assim, prometo visitar seu Blog sempre. x3

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  3. Algo me diz que eu conheço um pouco dessa história... será que estou certa? ^^

    :**

    (lendo os textos pendentes \o/)

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  4. Why not? Nem tudo é pura imaginação...

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  5. Concordo com Marcelo Mayer... O retrato de quem ama eh a Cama... rsrsrsrs...


    http://blog.supersapo.net/

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  6. Acho q vc tem mt vocação pra escritor e realmente, nem td é a mais pura imaginação hehehe...parabéns mesmo assim. Abraço do seu amigo cinemeiro Érico

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  7. o retrato de quem ama é a cama, o lençol e o cobertor.[3]

    rsrs

    Belas palavras as tuas...

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  8. as divas e os divos precisam estar na boca de todos! :D

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  9. ou não, né? já que foram ""

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  10. Ai, ai.... o q dizer q já não disse?
    Perfeito!

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