19 de setembro de 2010

50 por 1

O tic tac acelerado do relógio não disfarça a ansiedade do tempo, que corre sem sair do lugar, perdendo-se de vista os próprios ponteiros.
Hoje deixaram uma encomenda na porta daqui de casa, não sei quem pode ter sido. Era uma caixa preta, com detalhes em prata, ou ouro, não sei se sou capaz de, nesse momento, diferenciar. Uma embalagem muito bem feita, coisa fina, mas sem remetente.
Não pude exitar em abrir aquele  pacote, a curiosidade não  permitia. Mas e se fosse uma bomba? Ah, que se exploda – pensei – mas de certo aquilo não seria uma bomba. Me enganei. Era, de fato, uma bomba, não daquelas que faz “boom”, mas daquelas que faz “tum-tum-tum” no coração.
Dentro da pequena caixa havia um papel de seda revestido todo o seu interior, protegendo aquilo que os correios intitularam de “frágil”. Ora, frágil sou eu, no dia que aquilo se tornar frágil, de fato a professia do fim do mundo se tornará realidade. Junto ao embrulho de papel, um guardanapo com apenas uma pergunta: “Será que isso ainda te pertence?”, definitivamente seja lá quem for que tenha mandado esse embrulho, queria brincar comigo, isso não se faz.
Rapidamente rasguei o papel, deixei de lado junto a caixa e o guardanapo, daí podia-se ver o verdadeiro conteúdo, um apanhado de cartas, escritas num papel antigo, mal cuidado, 50 cartas. Cartas sem uma ligação qualquer, sem autoria visível, tratando dos mais diversos temas, ilusões, paixões, medos, angústias, encontros e desencontros, mas ainda assim não conseguia entender  aquilo.
Num instante, algo se suscedeu, não sei ao certo, uma brisa, uma luz, um gato. O que me faltava um gato pulando a janela e olhando para mim através da cortina translúcida. Realmente merecia algo mais instigante. Mas, eu conhecia aquele gato, e então me dei conta de que aquelas cartas, aquelas palavras, aquelas sensações, também não eram alheias a mim, mas de alguma forma não saberia decifrar os códigos.
Ao terminar a leitura, depois de sentir um misto de raiva, decepção e comédia, sim senti comédia, me dei conta que o gato estava mais perto de mim que eu poderia ter notado, assim como as lembranças. Um último bilhete no fundo da caixa dizia, Confissões drásticas de um neoromântico ferido.

2 Sincericídios:

  1. Uii! Tão vc... tão eu!
    Ameii encontrar vc de novo!

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  2. Um belo texto, apesar de excessivamente sentimental
    Grande Abraço
    CIA DOS BOTECOS - www.ciadosbotecos.blogspot.com

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Mentiras sinceras, me interessam...