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Tormenta

Ele é apenas uma criança, no auge de seus vinte e poucos anos, continua sendo uma criança, ao menos continua na luta pelo direito de poder ser uma, só por mais uns minutos. Uma criança perdida, num passado perdido, esquecido. Onde memórias borradas são apagadas a cada dia que passa. Menos um traço, um risco. Risco de perder-se, risco maior ainda, encontrar-se. O risco é não ter sentido. O risco é não ser sentido...

Eu preciso ir, agora, sair lá fora. Andar com os pés descalços no asfalto quente do meio dia, gelado da meia noite, na areia molhada da praia. Sentir o vento roçando meu rosto, despenteando meus cabelos, embaçando minha vista. Preciso me perder. Isso já não tá dando certo, não tem feito sentido, e nunca fez, não deveria fazer, não deveria ser preciso. Mas eu preciso... ser impreciso, buscar um sentido, algum tempo, umas manias novas, roupas novas... Um coração novo, menos calejado, menos gelado, menos poluído, mais nobre, mais pobre! Um músculo involuntário que pulse, apto para amar, e deixar ser amado. Preciso andar sozinho, vigiado, de longe, por olhos desconhecidos, estranhos. Preciso estar só, sentir só... Sentir... só! Sozinho, apenas. Desapegar, desamarrar, desandar, libertar. Sem cordas, nem teias, preciso crescer. Ser prisioneiro liberto. Preciso deixar, de ser criança, ser adulto. Preciso deixar de ser adulto, voltar a ser criança. Preciso correr o risco. Não volto. Apenas o vento saberá meu caminho...

Comentários

  1. todos nós queremos ser crianças..para poder fugir dessa triste realidade..

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  2. parabens pelo blog, otimo texto

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  3. Quem me dera voltar a ser criança viu, era tão bom quando a minha única preocupação era saber qual seria a próxima brincadeira.

    Belo texto!

    Beijos

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  4. Me identifiquei muito com o texto. parabéns.

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  5. E não há quem não se identifique com esse texto.. Todos passam por isso várias vezes na vida. Aliás, posso dizer, todos saem desse momento algumas vezes na vida. Estamos numa necessidade constante de novos horizontes, por mais que, quando eles chegam, nos desesperamos. Porque infelizmente a maioria das pessoas tem medo do novo. Mas o novo sempre chega, e chega pra melhorar.
    Faz um favor? O dia em que você encontrar um mapa ou um antídoto que nos tire do habitual e do tédio e nos leve à paz e realização espiritual e emocional... Me conta?
    Se puder me levar junto através da escrita seria também muito bom....rsrsrs

    Ótimo texto!
    Bjs

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  6. Precisamos ser adultos, para voltarmos a ser crianças.
    E precisamos voltar a ser crianças, para sermos adultos.
    Acho que encontramos a (falta de) lógica da vida \o/

    Observe-me: http://observaacoes.blogspot.com/2011/04/m.html
    ;D

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  7. O tempo é um paradoxo, e uma resposta... Quem dera tivéssemos mais tempo para decifrar o tempo!

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  8. "todo homem deseja, por pelo menos 5 minutos da vida adulta, voltar a ser menino".

    +

    "Ele (...) queria navegar-se, dar-se o direito de ser só e seguir seu próprio rumo".

    seu texto é uma soma de sentimentos que todos sentimos, somos assaltados por eles sempre, sempre. o que você fez? os capturou em palavras lindíssimas. eu gosto da sua fluidez. nem de longe o seu pior, viu?

    =*

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  9. Me sinto como criança, também, quase todos os dias, quando vejo minhas responsabilidades dobrarem em quantidade. Dói crescer, dói muito.
    Entendo o que você sente e sinto-o também, espero que logo passe.. Não só pra mim, mas pra você.

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  10. Devo dizer que o seu comentário no post de aniversário do meu blog muito me agradou. É estranho que alguém - em algum lugar distante - se comova de verdade com o que eu sinto e escrevo, e espero que seja sempre assim, obrigada pelas palavras de apoio, obrigada por essa admiração que não me considero tão digna de receber, obrigada de verdade.

    Dani.

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  11. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog somesentido. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

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