Pular para o conteúdo principal

Aurora

A essa altura, fechar os olhos e fingir não deveria ser uma saída. Deito, me reviro do avesso, procuro no silêncio da madrugada as respostas para as perguntas acanhadas que vão sendo esquecidas dia após dia, e mais um dia fogem. Procuro me enganar, fugir, fingir. Tentando me convencer de encontrar liberdade em solidão, de que preciso ser só para ser livre. Insensata necessidade de romper, partir, destruir mundos, este é o fim. Justificam-se os meios, não os medos. A madrugada escura me amedronta, me traz de volta ao vazio, me leva a consciência e põe de volta um algo estranho no lugar. O mundo revira por entre meus lençóis, trazendo de volta meus devaneios, minhas ilusões, memórias borradas, rasgadas, de um lugar adoravelmente desconhecido, refletido no brilho das estrelas caídas sob a terra molhada. E logo penso “Já estive aqui”. Não consigo dormir, e já nem sei se quero o que quero. Tantas coisas e nada, tantos simples. As paredes caladas nem me ouvem mais, já não há o que fazer, nem para onde ir, perdi o rastro que me guiou. Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. Ainda estou confuso, mas é como se agora fosse diferente. Vejo aquele que me tornei, no canto do quarto escuro, junto às coisas certas que transformei em erradas, não gosto do que vejo. Abro a porta, subo a rua, grito com toda minha voz, buscando razões, desenterrando confissões, escancarando meus dramas, convencendo-me das desculpas, do medo, do risco. Meu reflexo me inquieta. Essas escolhas... Daria tudo para não tê-las, abriria mão irresponsavelmente da responsabilidade, inconsequentemente das conseqüências. Nada mais é meu, queimei cada lembrança, cada sentimento, cada erro, cada escolha que não me deixaram crescer, como teias emaranhadas, aprisionando-me, ao que fui, ao que sou, ao que serei. Só restou minhas raízes expostas, suspensas, que teimam em crescer e permanecem firmes, como cristais que acabaram virando pedra. Um fruto pobre das escolhas que já nem sei se são minhas. Hoje vivo como equilibrista, na corda bamba dos sonhos, sem sequer saber de quem são meus sonhos. Sou passado desafiando o futuro, definhando, desconforme e em desalinho. Vendo a mim mesmo, a esmo. Vendo a vida passar por cima do muro, em cima do muro. Não estou pedindo uma segunda chance para errar. Talvez um dia nos encontraremos e talvez possamos conversar, e não apenas falar, palavras soltas ao vento. Minha mente está confusa, mas meu coração é forte.

Comentários

  1. NOOOOOOOSSAAAAAAA!

    O mais perfeito de todos os posts!
    Que coisa mais linda, Lipo!
    Me emocionei...

    Utilização perfeita das palavras, uma sincronia invejável.

    Deu show!
    E adorei o título :)

    Te amo!

    ResponderExcluir
  2. Loyane Rodrigues19/07/2011 17:53

    Mentiras sinceras tb me interessam... Um texto muito bom!!!

    ResponderExcluir
  3. acho que foi a coisa mais confessional, visceral e verdadeira que li por aqui. tão lindo, su. acompanhei o nascimento e o desenvolvimento de um escritor de mão cheia... adoro teus sincericídios. :) de verdade!

    ResponderExcluir
  4. muito bom o post :)

    passa la no http://wherearethesingleboys.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  5. Acabo de entrar sem pedir licença e me deparo com um texto forte e cheio de sentimentos. Esse que me remeteu a pensar que por vezes ficamos com as coisas entaladas. Nada melhor que gritar para o mundo.

    ResponderExcluir
  6. Nossa, você escreve muito bem. E me identifiquei com você, também procuro escrever coisas pessoais no meu blog, ainda que ele esteja bem no começo e não tenha compartilhado muitas coisas ainda. Meus parabéns. Pode contar que volto em breve!

    ResponderExcluir
  7. A madrugada é sempre um conflito interno, mas não posso negar que gosto consideravelmente dela... É durante a madrugada, quando todos dormem e apenas alguns permanecem, que nos sentimos vivos de verdade. E as vezes dói, simplesmente.

    Gostei muito do texto, muito mesmo.

    ResponderExcluir
  8. Nossa, vc descreveu um pouco da minha vida !

    ResponderExcluir
  9. adoreeei o blog e estou seguindo!!


    qnd tiver um tempinho, de uma passadinha no meu?


    bjooos

    http://cabecafeminina.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  10. Se um dia eu conseguir escrever assim, to feliz! Adorei o post Lipo! Quanta coisa dita, e bem dita, e profunda! Devaneio de pensamentos em um turbilhão capaz de nos fazer sentir o que está escrito!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Há tudo a perder. Sincericide-se

Postagens mais visitadas deste blog

Mônica

Hoje foi não foi um dia fácil, corri meio sem rumo, desacreditado, honrando compromissos que não pareciam se encaixar, seguindo o fluxo, deixando me levar. Fiz mais do que pude, falei mais do que sei, o tal peso da vida adulta. Já passa das 11, poderia escrever que estou sentado num sofá de couro, as luzes da cidade sobre mim, uma taça de vinho repousando sobre minhas pernas, uma fotografia perfeita para textos perfeitos. Mas minhas polaroides são borradas. Estou rencostado meio de lado, as costas doem, virei chácaras de café, relutante em dormir por essa noite, e te encontrar outra vez. Não vou mentir das vezes que pensei em você, das muitas vezes que meu coração saltou garganta afora ou ver seu nome cintilando no vidro fosco, e todo o circo que armei tentando agradar. Eu não sei onde quero chegar. Existe uma vida antes e outras dez depois de nós, ainda assim você não sai do meu sentimento. Ah, piegas, coisa de escritor romântico, que busca palavras bonitas para o ser amado. Coisa n…

Metonímias e Aliterações

Passeio pelas estações ouvindo grunhidos repetitivos semi nocivos, até que me pego cantarolando trechos de uma música qualquer daquela dupla pop que ninguém lembra o nome, o rosto, ou a poesia, não que fizesse alguma diferença. Hoje eu acordei olhei no espelho e não me vi. Horas a fio, o celular ferve por entre as mãos, silencioso e inquieto. Ensaiei centenas de maneiras de dizer um simples Hello, i want you let me jump in your play, mas me perdoe se eu não sei jogar, ou se talvez o saiba além das regras que insisto em (não) quebrar. Um joguinho é até divertido quando você está por perto. Penso que irei dobrá-lo, deixar me bater, vamos lá, querido, fique mais um pouco. I'll get him hot, show him what I've got. Revezo em encarar aqueles olhos, desejar aquela boca, e decifrar todos os teoremas fundamentais do universo. E daí que minh'alma segue num loop involuntário, divagando em diferentes infinitos... 
I need a hit, baby gimme it, it's dangerous I'm loving it, balb…

Alumínio

Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quere…