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Mostrando postagens de 2012

Ano Velho

Falar do tempo que passou parece ser minha especialidade. Como naqueles bares onde o prato do dia está sempre desenhado num quadro negro na porta, a diferença é que o prato do dia é o mesmo todos os dias.
A cada vez que me sento aqui, me reviro do avesso, destruo meu pedaço de chão, é como uma doença, um vício, prendo-me a isso que sequer parece fazer sentido. 
Escrever já não é uma opção, chorar nunca foi, é como se todos meus refúgios refugiaram-se de mim, pra longe, bem longe daqui, de mim, e tudo some numa súbita claridão, cegueira.
Andei apaixonado, ainda ando, quer dizer, deve de ser paixão, só isso justificaria essas atitudes banais, sem sentido, olhar nos olhos dela e tremer só de pensar que estou tão desarmado a ponto de ser quase transparente, visível. Me assusta, ser notado, mais até que não o ser. Deve ser medo de um dia ter todo esse amor retribuído.
Não me pergunte dos traumas de infância, corrego todos comigo, sobre os ombros, pesando cada dia mais, fazendo-me cair. E …

Das tripas ao coração

Não gosto de gente. Na verdade não sei o que sentir a respeito, meus sentidos se confundem, arrepia a espinha, um misto de pavor e nojo.

Não sou sociopata, é o que me dizem. Mandam procurar terapia, antecipo o diagnóstico e afirmo, o inferno são os outros.

Não lido bem com sentimentos, demonstrações públicas de afeto. Sentimentos estão intimamente vinculados á fraqueza, a ser vulnerável, não sou fraco, talvez seja.

Meu sarcasmo mascara uma carência de não sei o que, e afasta de mim os estúpidos e pequenos. Não suporto gente burra, pobre, sem educação. Crianças e animais despertam meus instintos homicidas.

Me sinto só, inquieto, buscando encontrar algo que me preencha, satisfaça e congele os dedos. Me sinto só, mas não me sinto mal, dou uma de autossuficiente e chuto o balde, pessoas não são bichos confiáveis, eu não sou.

Não vejo chances de me entregar a uma pessoa só, meu coração é repartido em pedaços, em vão, minha cabeça pensa em conquistar sem atar nenhum tipo de nó. Não finco o…

O Quereres

Quero não ter de pensar nos seus olhos verdes, de não gastar sinapses pensando em você. Queria que houvesse vestígios de realidade nesses pensamentos. Quero um sim, um talvez, um ‘let’s play’, ou qualquer coisa que preenchesse o vazio das noite sem ela aqui. Quero lançar mão da covardia, do medo do risco. Experimentar não pensar, ser impulsivo, agir por instinto, entrar no jogo. Usar as palavras certas, os momentos certos, esquecer tudo isso e simplesmente bancar os erros. Mergulhar nos lençóis e vomitar o filme que gravo mentalmente toda noite antes de dormir. Queria ser gente grande, o homem que vai te merecer. Fugir da terra do nunca, sem lenço, sem documento, sem olhar pra trás. E quando perguntarem se é amor só vou pensar no ritmo descompassado que bate meu coração toda vez que você está aqui. E que não importa se é amor, paixão, desejo, encanto, ou um mero mal entendido, deixa estar. 

Deja vu

Punho cerrado sobre a mesa, sombras espalhadas pelo chão, não passam de Meroe reflexos do meio. Escorre pelos dedos um coquetel de sangue, suor e lágrimas, minhas unhas desenham cicatrizes que durarão duas vidas. Isso deveria importar, mas não faz diferença. Meu interior sendo invadido, a um passo de jogar tudo fora, tanto esforço lançado a esmo. Sinto perder os sentidos, vou ficando frio, estático, perdendo controle da situação, prepotente, não permito demonstrar fraqueza. Então, olhos nos olhos, dou de ombros, sorriso nos lábios, falso, crédulo o suficiente. Me retiro, tranco as portas do meu quarto, e me obrigo a pensar um pouco mais, o mais rápido possível. Lidar com pessoas nunca foi meu forte, talvez elas precisem aprender um pouco mais. Enquanto todos confraternizam na varanda, me odeio por permitir que tenham efeito sobre meus pensamentos, e todos esses sentimentos. Deveriam ser irrelevantes. Afinal quem pensam ser? Outro dia me disseram que não se pode subestimar o poder …

Folia & Caos

A pouco do amanhecer, algumas horas, do lado de cá o tempo parece rodar num compasso adiantado, meio acelerado, os ponteiros simulando movimentos frenéticos, alucinados como num paraíso paralelo. Passa mais um dia sem ter o que fazer, vivendo de folia e caos, vivendo de ócio. Mais uns minutos sentindo a terra fria e molhada, sentindo a chuva escorrer pelos dedos, enquanto a lua divide espaço com a estrela, os raios do pôr do sol cumprimentam os do amanhecer. Cansado demais, exausto a ponto de não querer manter os olhos abertos, o coração pulsando, e um sorriso bobo. Fugi pra esse país pra buscar qualquer outro lugar, qualquer outra razão pra tentar ser feliz, sentir vontade de voltar, mas sempre me perco dos grãos de areia espalhados ao longo da beira do mar. Do lado de cá o vento sopra forte, misturando pensamentos e sonhos, certezas e fraquezas. Do lado de cá nada é mais igual, logo quando tento vida nova. Uma vida de certezas e vontades, uma ilusão, um tédio. Não sei viver de uma …

Etílico

Ando sonhando acordado. Fingindo que já te esqueci. Colecionando estrelas, vendendo canções. Desperto no meio da noite, atordoado. Reviro os lençóis, procurando o que jamais esteve aqui. Sento-me à beira do abismo, com os pés pra fora, assumo meu risco. Da janela do quarto andar, as pessoas insistem em parecer as mesmas pessoas. Me resta a reza. Fechar as portas, e rezar. Pedir pelo abraço perdido. O amor escondido. O beijo não dado. O amigo calado. Choro... Soluço, sobre o café derramado, o pão dormido, a geladeira vazia, fria. Imploro por uma doze de gim, ou outro artificial qualquer que me faça sair daqui. Que me leve até você. Onde o mundo parece real. Longe dos meus sonhos, longe do meu tempo. Longe de mim. O mundo aqui de cima parece meio ao contrário. Sereno, como mar, quando ela pisou na areia... O mar serenou. Daqui também o vejo, eu e o percevejo, me encarando, omitindo sua lânguida face, dentre as sombras das ondas que se vão e não voltam mais. Daqui de cima ele manda, e eu obed…

Vinte e três

Passou quase sem se sentir. Na rua dos dias que voam, pulei horas, ignorei as folhinhas do calendário. Resisti. São oito dias para o fim do mês. Gastei meu tempo fingindo não existir, necrosando o que me restou de amor. Faz tanto tempo que eu não te vejo queria o seu beijo outra vez. Eu só vivo pensando em você, não, não é sem querer. Sinto sua falta, sinto só em pensar lembrar você. Lembrar daquelas verdades inteiras atravessadas na garganta, dos silêncios cheios de si, foras de si... De te olhar. Faz falta a lama em que caímos, onde lutamos e onde nos rendemos. Onde foi que nos enfiamos? Sinto por lembar das correspondências trocadas, das cartas rasgadas e não enviadas. Por quebrar os telhados dos vizinhos. Por derrubar nossas máscaras. Sinto por não ser mais um menino, e não mais  te ter como minha mulher. Sinto por não saber o que fazer, nem do caminho a seguir, e me curvo ao lembrar de quando me amarrei aos pés da cama feito um bobo apaixonado, recusando-me de acordar. Sinto falta da…

Lateral

Outra manhã de outono, outro dia qualquer. Levanto da cama, me jogo no chão, bebo o café, faço careta, acordo pra vida. Debruço-me na janela lateral, a mesma rua, a mesma lama, o mesmo dia, de novo. A cama do outro lado, a parede debaixo, e não há chão. Conversas afiadas, vazias, brindes ensaiados, vou sendo capturado por abraços forjados, a cada passo em falso, um sorriso que se vai, parte de mim. A lama escorre pelo meio fio, invadindo a sala. E as pessoas na sala de jantar.
Meia volta do ponteiro. O porteiro grita, o elevador para, o mundo fala do tempo, sem parar. Num minuto são todos amigos de fila, colegas de bar, confidentes de mesa. Todos preocupados em nascer, viver mais um dia, e não morrer antes do fim. 
Um único desejo, que não seja apenas mais uma manhã de outono.  
Uma hora o tempo para, vira o avesso dos ponteiros, e a gente cansa. Girando, girando, girando, rodopiando feito pião. Cansa das meias verdades, das meias palavras, dos sorrisos amarelos e indiscretos, do co…

Estrangeira

E se eu me apaixonar? E se dessa paixão vier outro amor? E se nada disso acontecer? Acho graça em meus pensamentos. Ah... O que fiz de mim? Um bêbado louco, perdido na madrugada, trocando passos, trepidando, contando causos, juntando alguns trocados. A vida deve mesmo ser cruel, me parece que não, mas se dizem, deve mesmo ser. Olho pros lados, ergo os olhos, e entre risos abafados,  pensamentos me escapam. O que fiz de mim? Há tanta gente passando por aqui. Cruzam olhares, dão de ombros e se vão, somem no breu da esquina, um buraco negro, um fosso, ou qualquer coisa do tipo. Alguns até ensaiam um cumprimento meio forçado, meio educado, meio-a-meio. Menos ela. Estrangeira. Invasora. Ela sorri, sentando no meio fio, conversa com os olhos, e até me rouba uma careta indecisa, e sorri, dessa vez de mim. Os outros são outros, e só. Planejo retribuir, quem sabe um oi, talvez algo mais rebuscado, menos estúpido, menos previsível. Não dá tempo, ela se vai, pinota daqui, se lançando na areia. …

Chá Gelado

Qualquer coisa dita sobre mim, tende a ser menos verdadeira que qualquer mentira, ainda que seja dita por mim mesmo. O que dizem por aí não passam de meros retratos de uma vida inventada, um tanto de drama, e uma vida forjada.
Temo que tenha muito a dizer, mas sinto que sou incapaz de começar com o que realmente importa. Não sei quem sou. Não sei se por mera conveniência, ou conivência, ou se simplesmente não sei porque nunca soube. Talvez nunca saiba. 
Trago em mim, diria, uma certa bagunça incerta, um caos um tanto desagradável e autodestrutivo, que parece tomar conta de tudo que um dia possa ser meu. Devo confessar que isso me assusta, mas não posso evitar. Talvez seja um argumento interessante, um objetivo justo, conter a desordem. 
Nesse momento impossível não notar que todos me encaram, sem exceções. Seria inútil contestar cada mirada, mas não seria de bom tom disfarçar meu súbito constrangimento. Mantenho o foco em minhas mãos, e no que trago nelas, uma xícara de chá e um manu…

Um

Sozinho, na companhia aflita do silêncio. Lá fora o mundo gira, o tempo passa. Daqui nada se vê, nada se sente. Passa do lado, cortando o ar, desviando o olhar, fingindo. Consegue ouvir? O tal do silêncio.
Outro instinto mental, rompendo o silêncio, tangenciando um vazio, meio que sem jeito. Quem está aí? Já nem sei se era eu, ou se ainda sou, um outro, ou mais alguém, outro alguém. Ninguém. 
Quatro da manhã, escorre por trás as últimas gotas. Passos largos, ansiosos, fugitivos. Ainda desconheço as folhas verdes caídas nesse chão sem raízes. Desconheço essa ciranda de sonhos. Daqui de cima só se vê os peixes no oceano encarando o vazio. Desfaz o elo, partindo como uma novela das oito, deixando para trás o que resta de parte do todo, flores, amores, e blábláblá.


Aliança

Era outra vez, o mesmo menino, sentado ali, no último degrau, franzino, quieto, miúdo. Meio perdido, mal encarado, paralisado. Sem saber quem dizia ser.
Era outra vez, mulher, debruçada do altar, despida de tudo, lavada do mundo. Calada, minuta, presente.
Era outra vez, ali, no mesmo lugar, parado no espaço, voltando a si, como quem nunca, em um milhão de anos, se moveu, um único ínfimo centímetro que fosse.
Era outra vez, a velha infância usurpada, a adolescência ranzinza, o adulto precoce. Os velhos medos, os brinquedos caídos, os olhos vidrados, as noites acordado. Outra e outra vez, sempre ali, disposto, dispondo, atirando a esmo, a torto e a direito, sem rumo, sem prumo, sem direção, sem recurso, alheio ás telhas e as vidraças.
Era outra vez, a mesma desconfiança, o mesmo olhar tangente, o pé que ficou lá atrás. A decepção recorrente, as mesmas desculpas presentes, a mesma alma inconsequente.
Era outra vez, eu e você. Essa infinidade de pesos e medidas, desbalanceadas, viciada…

Aquarela

"De repente a gente acorda antes da hora, com uma história que não quer dormir. De repente alguma coisa diferente, alguma coisa feita para se sentir." Feito gota. Pura imensidão no vazio, vazio na imensidão. Fugindo, rindo, indo, desaparecendo, sem destino, sem confusão. Misturado-se. Enganando-se. Perdendo-se. Prendendo-se. Caindo, de novo, outra vez, despencando nesses poços de águas, turvas, oceanos perdidos, partidos, olhos rígidos, frígidos, cheios dum nada, vazios dum tudo, batendo lata com lata, nada com nada. Passos firmes num caminho, em direção ao que não foi escrito. Partindo em duo, dividindo em dois, escorrendo entre meus dedos, secando minha boca. Soprando à ventania. Desafiando. O tempo voando, num instante tudo para, acaba. Tentativas vãs de ser o que faltou ser, percorrendo estradas iguais, vivendo dias iguais. Sem jeito, voltar-se à casa, perder-se no tempo, se mandar desse estado, mudar de canal. Salvaguardar-se. Buscando por um esconderijo, ou algum manus…

Camila,

Como vai você? Eu preciso saber da tua vida, peço a alguém pra me contar sobre o seu dia, amanheceu e eu preciso só saber, como vai você? É assim que se começa uma carta? De certo modo, sinto que essa é a única maneira que encontrei de ser ouvido. Você sumiu, se encontra tão distante e inacessível. Como chegamos a esse ponto? Quando nos tornamos dois desconhecidos? Nos últimos dias, sempre que precisei falar você escapou, talvez você tenha medo de me ouvir e continua insistindo em fugir, valendo-se de um falso direito de modificar as vidas ao seu redor e partir, esquivando das responsabilidades, da coerência. Zero, anos depois, voltamos a ele. Do nada viemos e ao nada voltamos, o mesmo início e o mesmo fim, simultâneos. Já nem adianta estancar as feridas abertas e pulsantes, independentemente das razões que nos trouxeram aqui, agora, nos interessa mais as soluções, o caminho de volta. E faremos assim, como quiser... Palmas e arrepios a parte, este retrato me assusta, aflige, muito ma…

Sober

Dia estranho. Cara estranho. Uma estranha sensação de depressão se apossando daquela falta de sentido. Sentimento forasteiro, banal, de algum tipo qualquer de problema sem resolução. Era um nada a mais fora do lugar comum. É mesmo tudo tão comum, tudo muito bom, tudo muito bem. A mesma velha bipolaridade, e o receio de que a fossa explodisse e toda a merda batesse a porta. Pânico. O dia inteiro com a voz amarrada, a garganta arranhada, estranhando até mesmo as tintas e os azulejos do quarto, da cozinha e da sala de estar. Tateando, timidamente, no escuro do meio dia, buscando encontrar vestígios de hombridade e coragem, e quem sabe destruí-los dolorosamente, pouco a pouco. Eu aqui de fora encarava fixamente aqueles olhos vidrados, azuis, verdes, castanhos, como se fizesse alguma diferença. Eram belos, gélidos, distantes. Sentia o sangue se esvair, por um segundo estacionar, retomando um caminho rebelde, ardente. Segurava-me pelos pés enquanto deixava roubarem-me o fôlego. Aos meus, …

Reza Vela

Eu tenho medo.
Medo do meu reflexo no espelho. Das voltas que minha sombra dá.
Tenho medo do balanço do fogo, da cera da vela. Medo das madrugada.
Tenho medo de abrir a porta, e de continuar trancafiado aqui, sem ar, sem luz.
Me tremo só de bater os olhos, num lance, cada feixe, cada vulto...
Tenho medo de pensar, de um dia acordar.
Tenho medo de olhar pra frente e enxergar meus pecados, meu erros. Tenho medo de encarar meus desafios. Medo de escolher, e errar outra vez.
Tenho medo de voltar a confiar. Tenho medo de acreditar.
Até o mês passado era você quem me dizia que tudo isso faria sentindo.
Tenho medo de não poder falar, não ter o que falar, pra quem falar.
Aonde esta você agora além de aqui dentro de mim? Já dizia algum estúpido lúcido.
Tenho medo de não sentir mais. Tenho medo de nunca mais poder te tocar, te pegar em meus braços e fingir que tudo isso não existe.
Tenho medo de parar, e nunca mais conseguir retomar o caminho. E se as palavras me fugirem? Será que você ainda es…