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Mostrando postagens de Março, 2012

Um

Sozinho, na companhia aflita do silêncio. Lá fora o mundo gira, o tempo passa. Daqui nada se vê, nada se sente. Passa do lado, cortando o ar, desviando o olhar, fingindo. Consegue ouvir? O tal do silêncio.
Outro instinto mental, rompendo o silêncio, tangenciando um vazio, meio que sem jeito. Quem está aí? Já nem sei se era eu, ou se ainda sou, um outro, ou mais alguém, outro alguém. Ninguém. 
Quatro da manhã, escorre por trás as últimas gotas. Passos largos, ansiosos, fugitivos. Ainda desconheço as folhas verdes caídas nesse chão sem raízes. Desconheço essa ciranda de sonhos. Daqui de cima só se vê os peixes no oceano encarando o vazio. Desfaz o elo, partindo como uma novela das oito, deixando para trás o que resta de parte do todo, flores, amores, e blábláblá.


Aliança

Era outra vez, o mesmo menino, sentado ali, no último degrau, franzino, quieto, miúdo. Meio perdido, mal encarado, paralisado. Sem saber quem dizia ser.
Era outra vez, mulher, debruçada do altar, despida de tudo, lavada do mundo. Calada, minuta, presente.
Era outra vez, ali, no mesmo lugar, parado no espaço, voltando a si, como quem nunca, em um milhão de anos, se moveu, um único ínfimo centímetro que fosse.
Era outra vez, a velha infância usurpada, a adolescência ranzinza, o adulto precoce. Os velhos medos, os brinquedos caídos, os olhos vidrados, as noites acordado. Outra e outra vez, sempre ali, disposto, dispondo, atirando a esmo, a torto e a direito, sem rumo, sem prumo, sem direção, sem recurso, alheio ás telhas e as vidraças.
Era outra vez, a mesma desconfiança, o mesmo olhar tangente, o pé que ficou lá atrás. A decepção recorrente, as mesmas desculpas presentes, a mesma alma inconsequente.
Era outra vez, eu e você. Essa infinidade de pesos e medidas, desbalanceadas, viciada…

Aquarela

"De repente a gente acorda antes da hora, com uma história que não quer dormir. De repente alguma coisa diferente, alguma coisa feita para se sentir." Feito gota. Pura imensidão no vazio, vazio na imensidão. Fugindo, rindo, indo, desaparecendo, sem destino, sem confusão. Misturado-se. Enganando-se. Perdendo-se. Prendendo-se. Caindo, de novo, outra vez, despencando nesses poços de águas, turvas, oceanos perdidos, partidos, olhos rígidos, frígidos, cheios dum nada, vazios dum tudo, batendo lata com lata, nada com nada. Passos firmes num caminho, em direção ao que não foi escrito. Partindo em duo, dividindo em dois, escorrendo entre meus dedos, secando minha boca. Soprando à ventania. Desafiando. O tempo voando, num instante tudo para, acaba. Tentativas vãs de ser o que faltou ser, percorrendo estradas iguais, vivendo dias iguais. Sem jeito, voltar-se à casa, perder-se no tempo, se mandar desse estado, mudar de canal. Salvaguardar-se. Buscando por um esconderijo, ou algum manus…