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Aliança


Era outra vez, o mesmo menino, sentado ali, no último degrau, franzino, quieto, miúdo. Meio perdido, mal encarado, paralisado. Sem saber quem dizia ser.

Era outra vez, mulher, debruçada do altar, despida de tudo, lavada do mundo. Calada, minuta, presente.

Era outra vez, ali, no mesmo lugar, parado no espaço, voltando a si, como quem nunca, em um milhão de anos, se moveu, um único ínfimo centímetro que fosse.

Era outra vez, a velha infância usurpada, a adolescência ranzinza, o adulto precoce. Os velhos medos, os brinquedos caídos, os olhos vidrados, as noites acordado. Outra e outra vez, sempre ali, disposto, dispondo, atirando a esmo, a torto e a direito, sem rumo, sem prumo, sem direção, sem recurso, alheio ás telhas e as vidraças.

Era outra vez, a mesma desconfiança, o mesmo olhar tangente, o pé que ficou lá atrás. A decepção recorrente, as mesmas desculpas presentes, a mesma alma inconsequente.

Era outra vez, eu e você. Essa infinidade de pesos e medidas, desbalanceadas, viciadas, anuláveis, revogando sentimentos, retroagindo àquela vez.

Era outra vez, a mesma vez, aquela que não foi, que sequer seria. A mesma vez que jamais voltaria. A única que talvez poderia, se dispersaria, mas que desta vez, se tornaria, quem dera, outra vez.

Era outra vez, o mesmo chuveiro ligado, a mesma cama arrumada, os mesmos lençóis usados.

Era outra vez, dois corpos molhados, debochados... aliados.

Como na primeira vez... 


Comentários

  1. Nossa, poético demais. Imaginar a cena...humm. Puro delírio! Amei!

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Há tudo a perder. Sincericide-se

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