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Mostrando postagens de Abril, 2012

Lateral

Outra manhã de outono, outro dia qualquer. Levanto da cama, me jogo no chão, bebo o café, faço careta, acordo pra vida. Debruço-me na janela lateral, a mesma rua, a mesma lama, o mesmo dia, de novo. A cama do outro lado, a parede debaixo, e não há chão. Conversas afiadas, vazias, brindes ensaiados, vou sendo capturado por abraços forjados, a cada passo em falso, um sorriso que se vai, parte de mim. A lama escorre pelo meio fio, invadindo a sala. E as pessoas na sala de jantar.
Meia volta do ponteiro. O porteiro grita, o elevador para, o mundo fala do tempo, sem parar. Num minuto são todos amigos de fila, colegas de bar, confidentes de mesa. Todos preocupados em nascer, viver mais um dia, e não morrer antes do fim. 
Um único desejo, que não seja apenas mais uma manhã de outono.  
Uma hora o tempo para, vira o avesso dos ponteiros, e a gente cansa. Girando, girando, girando, rodopiando feito pião. Cansa das meias verdades, das meias palavras, dos sorrisos amarelos e indiscretos, do co…

Estrangeira

E se eu me apaixonar? E se dessa paixão vier outro amor? E se nada disso acontecer? Acho graça em meus pensamentos. Ah... O que fiz de mim? Um bêbado louco, perdido na madrugada, trocando passos, trepidando, contando causos, juntando alguns trocados. A vida deve mesmo ser cruel, me parece que não, mas se dizem, deve mesmo ser. Olho pros lados, ergo os olhos, e entre risos abafados,  pensamentos me escapam. O que fiz de mim? Há tanta gente passando por aqui. Cruzam olhares, dão de ombros e se vão, somem no breu da esquina, um buraco negro, um fosso, ou qualquer coisa do tipo. Alguns até ensaiam um cumprimento meio forçado, meio educado, meio-a-meio. Menos ela. Estrangeira. Invasora. Ela sorri, sentando no meio fio, conversa com os olhos, e até me rouba uma careta indecisa, e sorri, dessa vez de mim. Os outros são outros, e só. Planejo retribuir, quem sabe um oi, talvez algo mais rebuscado, menos estúpido, menos previsível. Não dá tempo, ela se vai, pinota daqui, se lançando na areia. …

Chá Gelado

Qualquer coisa dita sobre mim, tende a ser menos verdadeira que qualquer mentira, ainda que seja dita por mim mesmo. O que dizem por aí não passam de meros retratos de uma vida inventada, um tanto de drama, e uma vida forjada.
Temo que tenha muito a dizer, mas sinto que sou incapaz de começar com o que realmente importa. Não sei quem sou. Não sei se por mera conveniência, ou conivência, ou se simplesmente não sei porque nunca soube. Talvez nunca saiba. 
Trago em mim, diria, uma certa bagunça incerta, um caos um tanto desagradável e autodestrutivo, que parece tomar conta de tudo que um dia possa ser meu. Devo confessar que isso me assusta, mas não posso evitar. Talvez seja um argumento interessante, um objetivo justo, conter a desordem. 
Nesse momento impossível não notar que todos me encaram, sem exceções. Seria inútil contestar cada mirada, mas não seria de bom tom disfarçar meu súbito constrangimento. Mantenho o foco em minhas mãos, e no que trago nelas, uma xícara de chá e um manu…