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Chá Gelado



Qualquer coisa dita sobre mim, tende a ser menos verdadeira que qualquer mentira, ainda que seja dita por mim mesmo. O que dizem por aí não passam de meros retratos de uma vida inventada, um tanto de drama, e uma vida forjada.

Temo que tenha muito a dizer, mas sinto que sou incapaz de começar com o que realmente importa. Não sei quem sou. Não sei se por mera conveniência, ou conivência, ou se simplesmente não sei porque nunca soube. Talvez nunca saiba. 

Trago em mim, diria, uma certa bagunça incerta, um caos um tanto desagradável e autodestrutivo, que parece tomar conta de tudo que um dia possa ser meu. Devo confessar que isso me assusta, mas não posso evitar. Talvez seja um argumento interessante, um objetivo justo, conter a desordem. 

Nesse momento impossível não notar que todos me encaram, sem exceções. Seria inútil contestar cada mirada, mas não seria de bom tom disfarçar meu súbito constrangimento. Mantenho o foco em minhas mãos, e no que trago nelas, uma xícara de chá e um manuscrito. 

É uma luta diária permanecer forte, silencioso, só. Os últimos meses têm sido particularmente difíceis, mas estou aqui. Sempre estou. Ombros tensos, mãos cerradas, olhar distante, nada disso importa, a distância entre realidade e percepção é uma mera questão de ser - ou não ser. Tupi or not tup. Um último ponto de vista. Inútil. 

Não é apenas minha mente que está cansada de girar, meu corpo implora por uma dose extra de equilíbrio e sensatez. Pouco a pouco retorno à posição inicial, fetal, fatal, não posso ofertar nada além do que minhas mãos podem alcançar, não ainda. Dou de ombros e me reviro do avesso, ignorando as necessidades, tentado manter o foco, que a essa altura se perdeu há tempos, retomá-lo é única saída. 

Também não identifico as razões que me trazem até aqui, só que nos últimos tempos tenho estado cada vez mais sozinho. Esperava que isso não fosse de fato um problema. 

Nunca fui muito bom em lidar com pessoas, ou com sentimentos sobre pessoas, não é exatamente algo tranquilizador, e depois de tudo, tornou-se quase insuportável. Não me sinto próximo de alguém, íntimo, há muito tempo, desde que tudo mudou. Tudo isso me parece fora de órbita, forçado. 

Fingir ser o que não se é, custa caro, especialmente quando não se sabe quem de fato se é. Então tudo não passa de meras suposições, algumas deduções e tantas outras especulações vazias? Uma máscara, uma morte, dia após dia, outro dia.

Eles não confiam em mim, consegue vê como isso não faz sentindo? A graça é que não me importo, não tanto quando sinto que deveria. Mas também não posso culpá-los, se mesmo eu tenho dificuldades de confiar em mim. Também não confio neles, então, elas por elas. Confiança não é algo que costumo distribuir a la carte, desconfio de toda sombra, presumo inclusive que essas pedras são falsas... E claro, sua atenção. Desculpe-me mas não vou me dar o trabalho de tentar abafar o riso. Eu sei, eu sei, meu senso de humor anda bastante afiado ultimamente. Dizem-me hostil. Mas calma, não precisa se preocupar com isso, como já disse, não me importo. Deveria? 

Na verdade, já não me importo com tanta coisa, felizmente minha sanidade não é uma delas, temo que esteja gravemente ameaçada por essa tal esquizofrenia poética. Patético. Não sei o efeito que pode causar, isso me irrita, me escapa pelos dedos e fico a um passo de perder o controle... Outra vez. Fervo, quase surto. Não sei ao certo o que esperar. Espero.

Breve farei uma viagem. Sozinho, como de costume. Levando as únicas coisas sólidas que ainda restaram comigo, sarcasmo e ironia. Levo também, devo reconhecer, essa pose arrogante e meu senso de autossuficiência, eles me impedem de reconhecer e admitir que sou humano, que sinto dor. Coisas da vida. Tratarei de me assegurar que todos estarão devidamente ocupados. Namorados, companheiros de quarto, prostitutas, e pronto, ninguém terá tempo de notar minha ausência, mas certamente sentirão. 

Ora, ora. Parece-me que ao menos um pouco de tranquilidade, respeito e boa educação estarão a minha espera, em algum lugar seguro. E não se preocupe, tratarei de me certificar de que haverá paredes. Elas me farão companhia, e na pior das hipóteses, recorrerei ao horizonte, me parece infinito o suficiente, não acha? 

Paredes, ainda que tenham ouvidos, serão mais confiáveis e leais que qualquer pseudocult intelectualizado que se diga digno de qualquer coisa qualquer.

Espero não ter de me desculpar pelos meus modos, o chá está gelado.

Certamente darei notícias.


Comentários

  1. Há tempos que não leio um texto tão cheio de alma, tão cheio de verdade, tão cheio de si. Muito bom!!!!

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