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Lateral


Outra manhã de outono, outro dia qualquer. Levanto da cama, me jogo no chão, bebo o café, faço careta, acordo pra vida. Debruço-me na janela lateral, a mesma rua, a mesma lama, o mesmo dia, de novo. A cama do outro lado, a parede debaixo, e não há chão. Conversas afiadas, vazias, brindes ensaiados, vou sendo capturado por abraços forjados, a cada passo em falso, um sorriso que se vai, parte de mim. A lama escorre pelo meio fio, invadindo a sala. E as pessoas na sala de jantar.

Meia volta do ponteiro. O porteiro grita, o elevador para, o mundo fala do tempo, sem parar. Num minuto são todos amigos de fila, colegas de bar, confidentes de mesa. Todos preocupados em nascer, viver mais um dia, e não morrer antes do fim. 

Um único desejo, que não seja apenas mais uma manhã de outono.  

Uma hora o tempo para, vira o avesso dos ponteiros, e a gente cansa. Girando, girando, girando, rodopiando feito pião. Cansa das meias verdades, das meias palavras, dos sorrisos amarelos e indiscretos, do copo vazio, da metade, do lado de cá. 

Gritaria. Correria. O velho da casa ao lado. Deixe-me adivinhar: artéria obstruída, coração parado, corpo gelado, caixão aberto. Eis apenas mais um morto vivo. Viva. Fique alerta.

Quem é feliz? Eu fui uma vez. E o vento levou. Para lá, do lado oposto de quem vem, partiu com todo o verbo, todo sentido, cansando essa gente que passa o tempo tentando agradar, enquanto só pensa em matar. Tudo que sei a respeito dos homens é estranho. 

Estranho mesmo é a tal diplomacia de botequim, chamemos assim, esse jeito sei lá como, mais ou menos, médio, produto do meio, humano. Ausente, porém carente, sem ter de ser coerente, sorrindo as e vivendo pelas - beiradas. E ainda me acusam de roubar a verdade, aquela da qual sou dono. Ai, ai... Bailando no meio fio, achando graça da vida, dançando na chuva, debaixo do meu guarda-chuva. Eu vou.

Dá licença, mas eu vou sair do sério. Quero ir pronde o choro é um só, é inteiro, sorriso aberto, beber do leite derramado, azedar o doce. O que farão de mim? Pouco importa. Deixe que façam. O branco é branco, e isso deve ter algum sentido. Haja o que houver, o leão atacará sem dó, e não há de se falar em piedade, nem perdão.

O fim de uma noite de outono, depois de outro dia qualquer. É carne, é osso, é duro.


Comentários

  1. Extravasar... Jogar fora o que não tem valor e deixar o que é realmente intenso chegar... Lindo seu texto!

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