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Etílico



Ando sonhando acordado. Fingindo que já te esqueci. Colecionando estrelas, vendendo canções.
Desperto no meio da noite, atordoado. Reviro os lençóis, procurando o que jamais esteve aqui. Sento-me à beira do abismo, com os pés pra fora, assumo meu risco. Da janela do quarto andar, as pessoas insistem em parecer as mesmas pessoas.
Me resta a reza. Fechar as portas, e rezar.
Pedir pelo abraço perdido. O amor escondido. O beijo não dado. O amigo calado.
Choro... Soluço, sobre o café derramado, o pão dormido, a geladeira vazia, fria.
Imploro por uma doze de gim, ou outro artificial qualquer que me faça sair daqui. Que me leve até você. Onde o mundo parece real. Longe dos meus sonhos, longe do meu tempo. Longe de mim.
O mundo aqui de cima parece meio ao contrário. Sereno, como mar, quando ela pisou na areia... O mar serenou. Daqui também o vejo, eu e o percevejo, me encarando, omitindo sua lânguida face, dentre as sombras das ondas que se vão e não voltam mais. Daqui de cima ele manda, e eu obedeço.
Me perco da reza. Às vezes esqueço a tristeza por quase um segundo. Traço uma linha tênue entre a aurora e a luz que cega e me dá medo. Tão certa quanto a incerteza das vidas.
Livrai-me da bala perdida, e da mal achada, do dono do que é meu. Livrai-me senhor. Livrai-me de mim, livrai-me do todo. Guardai-me e pretejei-me do que sou e daquele que fui. Perdoa por quem serei.

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