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Vinte e três



Passou quase sem se sentir. Na rua dos dias que voam, pulei horas, ignorei as folhinhas do calendário. Resisti. São oito dias para o fim do mês. Gastei meu tempo fingindo não existir, necrosando o que me restou de amor. Faz tanto tempo que eu não te vejo queria o seu beijo outra vez.
Eu só vivo pensando em você, não, não é sem querer. Sinto sua falta, sinto só em pensar lembrar você. Lembrar daquelas verdades inteiras atravessadas na garganta, dos silêncios cheios de si, foras de si... De te olhar.
Faz falta a lama em que caímos, onde lutamos e onde nos rendemos. Onde foi que nos enfiamos?
Sinto por lembar das correspondências trocadas, das cartas rasgadas e não enviadas. Por quebrar os telhados dos vizinhos. Por derrubar nossas máscaras. Sinto por não ser mais um menino, e não mais  te ter como minha mulher. Sinto por não saber o que fazer, nem do caminho a seguir, e me curvo ao lembrar de quando me amarrei aos pés da cama feito um bobo apaixonado, recusando-me de acordar.
Sinto falta da força que me obriguei a ter quando você partiu. Sinto falta da inveja que tinha de mim mesmo por estar contigo, por não está mais.
Perdi-me das esmeraldas que carregava nos bolsos, onde podia enxergar teus olhos.
O tempo se foi, nas ondas, no vento, e como na música, nada do que foi será como já foi um dia. Maio já está no final e de que adiantou ter fechado os olhos e fazer escolhas erradas?
Você tem razão, nada é o que parece ser, nem mesmo eu, nem mesmo você, nem nós. Só que restou foram esses nós.
Talvez poderia ter escolhido uma vida longa, mas se toda essa existência estaria fadada ao azedume de tua ausência, seria em vão. Onde você estiver, se ainda não esqueceu de mim, te faço um último pedido, só nunca mais me deixe...



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