Pular para o conteúdo principal

Ano Velho


Falar do tempo que passou parece ser minha especialidade. Como naqueles bares onde o prato do dia está sempre desenhado num quadro negro na porta, a diferença é que o prato do dia é o mesmo todos os dias.

A cada vez que me sento aqui, me reviro do avesso, destruo meu pedaço de chão, é como uma doença, um vício, prendo-me a isso que sequer parece fazer sentido. 

Escrever já não é uma opção, chorar nunca foi, é como se todos meus refúgios refugiaram-se de mim, pra longe, bem longe daqui, de mim, e tudo some numa súbita claridão, cegueira.

Andei apaixonado, ainda ando, quer dizer, deve de ser paixão, só isso justificaria essas atitudes banais, sem sentido, olhar nos olhos dela e tremer só de pensar que estou tão desarmado a ponto de ser quase transparente, visível. Me assusta, ser notado, mais até que não o ser. Deve ser medo de um dia ter todo esse amor retribuído.

Não me pergunte dos traumas de infância, corrego todos comigo, sobre os ombros, pesando cada dia mais, fazendo-me cair. E ouvir esse choro abafado que sequer sai de mim, dói. Arranha.

Já disse antes que ando cansado. Cansei de ser eu mesmo, e de tentar ser outro alguém. De seguir as fórmulas certeiras de como vencer na vida, cansei dos sentimentos pré fabricados, cansei de ser sob medida.

Nunca fui claro ao dizer o que sou, ou o que quero. Talvez porque não saiba, ou não queira saber. Conheço, e sou reflexo, daquilo que não sou. Daqueles que deixei pra trás. Dos vazios.

Abandonei tantos fios, tantos e tantos por aí. Quando não me serviam, largava-os pelo caminho, uns fizeram falta, outros farão, outros me corroem as vísceras, mas do que sinto falta mesmo, mato em sonhos, em silêncio, como se fosse pecado, como se merecesse a dor da solidão.

Do que sobrou faço bom proveito, tento, mas confesso que deveria e até poderia fazer mais, se mais fosse feito, mas me cansa tentar ser o tempo inteiro aquilo que sempre fui, que sempre sou, me cansa responder as mesmas perguntas que são respondidas num simples toque, num simples olhar. Você sempre sabe se está tudo bem. 

Não sinto falta daqueles dias, ou daquelas pessoas, sinto falta daquilo que faltava, ou que parecia sobrar, sinto falta dos quinze e meio, dos dezesseis. Esses vinte, parecem cada vez mais próximos do fim. Fim da criança.




Já te falei dela? Dos olhos verdes, os cabelos loiros caídos nos ombros, o humor grosseiro, as unhas bem feitas, o jeito mandão que nenhuma outra tinha? É paixão e ela sabe. Ela sabe, que eu sei que ela sabe. Ela não me deixa esquecer, todos os dias. Mulheres são bichos perigosos, provocativos, nasceram para serem amadas, nunca para amarem.

Ela tem um ele, um ele que não sou eu, ou outro, e eu sei, e vejo tudo que potencialmente estaria disposto a ser se não fosse tudo isso que já sou. Se estivesse pronto para viver todas as experiências, que por medo, me recusei a viver até hoje. Nos meus olhos verão a vontade de saltar, nos lábios cerrados o medo de me entregar, no coração um vazio, na cabeça uma certeza. E se é complexo demais de ouvir, imagine como seria sentir. Eu sinto.

Não é drama, estou farto de dramas. Sim é drama, é carência, é cena, é uma necessidade desmedida de encontrar um abrigo, um lugar inseguro.

Dizem que eu conquistaria o mundo fazendo exatamente o oposto do que eu faria, o que normalmente eu farei a partir de agora, não por querer conquistar, mas por necessitar me curar. Não consigo coligar sentimentos ilógicos a pensamentos coerentes.

Olho pros lados e não vejo nada. A mesma solidão de sempre. O mesmo escuro. A mesma meia noite. Enquanto os peixes crus são servidos na sala ao lado, eu permaneço aqui, alheio aos peixes, cru. E qualquer movimento a partir de agora soará falso, mesmo esse sorriso que escapa ao canto da boca.

Não tenho mais vontade, e é por isso que sempre soa como da última vez. Até mudar de idéia sigo pensando o mesmo. 

Dou a vida por um período sabático, longe desse ano velho. Não que eu esteja pronto pra viver num mundo novo, nem quero. Nos próximos instantes, eu só gostaria de parar de viver, pra ver.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Metonímias e Aliterações

Passeio pelas estações ouvindo grunhidos repetitivos semi nocivos, até que me pego cantarolando trechos de uma música qualquer daquela dupla pop que ninguém lembra o nome, o rosto, ou a poesia, não que fizesse alguma diferença. Hoje eu acordei olhei no espelho e não me vi. Horas a fio, o celular ferve por entre as mãos, silencioso e inquieto. Ensaiei centenas de maneiras de dizer um simples Hello, i want you let me jump in your play, mas me perdoe se eu não sei jogar, ou se talvez o saiba além das regras que insisto em (não) quebrar. Um joguinho é até divertido quando você está por perto. Penso que irei dobrá-lo, deixar me bater, vamos lá, querido, fique mais um pouco. I'll get him hot, show him what I've got. Revezo em encarar aqueles olhos, desejar aquela boca, e decifrar todos os teoremas fundamentais do universo. E daí que minh'alma segue num loop involuntário, divagando em diferentes infinitos... 
I need a hit, baby gimme it, it's dangerous I'm loving it, balb…

Mônica

Hoje foi não foi um dia fácil, corri meio sem rumo, desacreditado, honrando compromissos que não pareciam se encaixar, seguindo o fluxo, deixando me levar. Fiz mais do que pude, falei mais do que sei, o tal peso da vida adulta. Já passa das 11, poderia escrever que estou sentado num sofá de couro, as luzes da cidade sobre mim, uma taça de vinho repousando sobre minhas pernas, uma fotografia perfeita para textos perfeitos. Mas minhas polaroides são borradas. Estou rencostado meio de lado, as costas doem, virei chácaras de café, relutante em dormir por essa noite, e te encontrar outra vez. Não vou mentir das vezes que pensei em você, das muitas vezes que meu coração saltou garganta afora ou ver seu nome cintilando no vidro fosco, e todo o circo que armei tentando agradar. Eu não sei onde quero chegar. Existe uma vida antes e outras dez depois de nós, ainda assim você não sai do meu sentimento. Ah, piegas, coisa de escritor romântico, que busca palavras bonitas para o ser amado. Coisa n…

Alumínio

Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quere…