Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2013

Ao portador

Oi moço,
Boa noite, não sei se por aí ainda é noite, ou se já é dia. Não faz diferença, li mais cedo que a noite é a mesma coisa que o dia, com uma tonalidade diferente, e a escuridão sequer é uma perda de visibilidade, é apenas uma mudança de tom. Há tempos esperava este encontro, essas palavras vinham sendo ensaiadas noites a fio, mas sabe-se lá por qual razão só agora dedico estas linhas ao senhor. Bem, acho que temos a mesma idade, então poderia poupar os formalismos?! Somos tão íntimos que isto se faz desnecessário, e torna esse momento ainda mais constrangedor.  Não, você não me conhece, ao menos não que eu saiba. Na verdade por mais íntimo que eu me sinta, eu também não o conheço. Só sei de suas palavras cruzadas, suas fotos borradas, suas meias verdades, seus neologismos. Estranharia se eu dissesse que parte de meus pensamentos tem sido habitada por você? Outro dia eu até sonhei com você. E foi tão real te ter perto de mim, ainda que por um único e breve instante. Não sei ao …

XXII

Ontem dormi me sentindo velho, cansado, com o peso do mundo sobre os ombros, o peso dos últimos 365 dias. Hoje se me perguntam, estou mais velho, porém mais leve. E nada tem haver com a sabedoria que a idade trás. Uma vela a mais em cima do bolo nada representa quando a alma é pequena. Trago comigo tantos sonhos e realidades. Lágrimas e sorrisos. Noites de insônia e versos borrados, trocados e uns tantos roubados. Eu só acho que essa noite poderia durar pra sempre. Luzes de neon pela cidade, livros espalhados no chão, DVDs arranhados, e quem diria que estaríamos aqui hoje cantando nossa história. E parece tudo tão certo. E de imaginar que a vida só está começando, e esse é o primeiro dia do resto de nossas vidas. Digam que sou louco por pensar assim. Se sou muito louco por eu ser feliz, mais louco é quem me diz... Rita, Rita... Não sei quanto a você, mas nos próximos 365 dias vou ser feliz. É minha resolução de ano novo. Um vida nova a cada novo dia. E que tudo mais vá pro inferno. A…

Roda Gigante

Não sei começar pelo verso. Meus dias parecem correr em prosa, dilacerando qualquer tipo de bom senso. Sou remendos de sentimentos. Horas e horas deitados no divã, sob análise, ainda assim, saio do plano, dessas linhas borradas. Me acostumei a errar, persistir no erro. Sou reincidente. Concerto os buracos aos poucos, amanhã, depois de amanhã, quem sabe mês que vem. Me concentrei em viver de desculpas, criando, pedindo, dando. Nunca soube muito bem como esquecer, nem como começar novos parágrafos. Um dom estilístico, essa vontade de ser etílico. Nasci falando, berrando, ainda hoje corre por entre carne e ossos uma necessidade de gritar, rachar o concreto, de ser ouvido pelo abstrato. E mesmo com as linhas óbvias, tento fazer algum sentido. Mas o mundo continua muito ocupado girando, girando, girando. E de tanto rodopiar, aprendi a ser invencível, enjoado e invisível. Silente, opaco e disforme. Aprendi a retribuir. Do nada apenas se nasce o nada, dum mundo de ilusões, toda uma vida. O …

três

ponteiros sobrepostos exalam o odor desta angústia que se faz presente por anos e anos outra paixão ululante incapaz de satisfazer dois corações outra paixão desconhecida que num único olhar dispara o coração encharca a mão pularia muros barreiras penhascos por um largaria o mundo pela outra falaria se soubesse quereria podíamos ser um podíamos ser dois podíamos ser três vaga-lumes dançam fora de órbita na parede do quarto escuro do lado vazia da cama a dor do que foi omitido parte de tudo que não foi permitido ela uma pedra preciosa subliminar translúcida ele estranho e forasteiro dois olhares dois sorrisos dois mundos de frente pros dois minha garganta estranha poderíamos ser um poderíamos ser dois poderíamos ser três

Lírico

Era de oito a oitenta. Vivia de extremos. Passava os dias por um fio. Evitava meio termos. Por detrás do eu lírico escondia meus vícios. Negava o natural. Fazia de tudo normal, normal demais. Afastava-me de conceitos. Criava pretextos, pós textos, mas nas entrelinhas era onde me perdia. Dizia ser metamorfose ambulante. Descobri-me sem forma. Na dúvida, não me cabia, não me encaixava, não funcionava. Nas raízes, criei asas. Todo são. Tantas certezas em vão. Acordei no topo do mundo, no fosso, de ponta cabeça. Criando o medo. Criando a culpa. De tão minha já nem me cabia. Descobri-me forte. Descobri-me grande. Indefinido. E de tantas definições, falácias, um nada. Do nada, ao nada. Passou como um sopro. Ríspido e afoito. Incontinente. Híbrido. Daqueles termos, fiz os meios e  os fins. Esses se justificam e se alinham a esquerda. Espaçamento simples. Recuo. "Indivíduo sem prévias definições". Indefinições póstumas. Gosto mesmo é de gente, na mesma proporção, tanto ou mais, quan…

Telegrama

Olha eu vou ser curto e grosso, tem dias, semanas que essas palavras estão se retorcendo dentro de mim, e eu me remoendo em angústias, insone, preso a um silêncio desafiador, eu só queria que você soubesse o quanto tem sido especial gastar meus minutos com você, sei que são poucos, as vezes de péssima qualidade, nós dois, sozinhos é raridade, o mundo aparece como um ruído aos nossos olhos, a nossas falas. Daria parte do que sou pela coragem necessária para pronunciar as palavras tão temidas, aquelas que a gente esconde até de nós mesmos. Mas sou covarde, então mantenho elas nas entrelinhas, escondidas, acuadas, subentendidas.  Mentiria se dissesse que você tira meu sono desde o primeiro dia, eu nem te percebi no primeiro dia, tampouco nos seguintes. Demorei para notar a sua presença, demorei para me acostumar com ela, demorei para me importar com ela, demorei demais. Demorei até os últimos instantes, me agarrei ao último adeus, aquele que todas as vezes me recuso a dar. Deve de ser o pre…