Pular para o conteúdo principal

Telegrama

Olha eu vou ser curto e grosso, tem dias, semanas que essas palavras estão se retorcendo dentro de mim, e eu me remoendo em angústias, insone, preso a um silêncio desafiador, eu só queria que você soubesse o quanto tem sido especial gastar meus minutos com você, sei que são poucos, as vezes de péssima qualidade, nós dois, sozinhos é raridade, o mundo aparece como um ruído aos nossos olhos, a nossas falas.
Daria parte do que sou pela coragem necessária para pronunciar as palavras tão temidas, aquelas que a gente esconde até de nós mesmos. Mas sou covarde, então mantenho elas nas entrelinhas, escondidas, acuadas, subentendidas. 
Mentiria se dissesse que você tira meu sono desde o primeiro dia, eu nem te percebi no primeiro dia, tampouco nos seguintes. Demorei para notar a sua presença, demorei para me acostumar com ela, demorei para me importar com ela, demorei demais. Demorei até os últimos instantes, me agarrei ao último adeus, aquele que todas as vezes me recuso a dar.
Deve de ser o preto dos teus olhos, os traços fortes do seu rosto, ou aquele sorriso largo que preenche o dia. Talvez seja o barulho, o incômodo, o fora da ordem. Como pode ser tão impróprio? Como pode ser.
E de nada valeu o esforço. E quanto a todas as outras?
Não parece ter argumento algum, não parece ter explicação alguma, não que esteja a procura, mas elas deveriam existir, é meu direito. 
Todas os pontos e vírgulas usados até hoje caídos no chão, embaralhados como num caça-palavras, gritando coisas que eu não quero ouvir, mas que já nem me importo em falar.
Não é difícil falar de você, falar com você. Difícil é te ver e não te querer, é inegável, impossível. Difícil é ter que esquecer, sem saber se o certo é ter de esquecer.
E no fim das contas isso nem deveria ser tão difícil, não deveria ser o inferno que se tornou. O amor é bobo, não que seja amor, mas eu sou bobo, não me importo em parecer bobo, me importo em parecer incompleto.
E agora João, Maria, José? Que será de nós, como todas essas ruas entre nós?
Eu olho nos teus olhos e imploro que tudo isso tenha sido um sonho, e que a qualquer momento o despertador há de me acordar, mas o tempo vai passando, e a noite não acaba, parece eterna. 
Te espero escondido e você não vem. Uma resposta e nada mais, é o que eu te peço, uma única resposta, só não me peça para perguntar. Não me dê escolhas.
Me dê uma vida.

Postagens mais visitadas deste blog

Alumínio

Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quere…

Gatilho

Aí está a história de um homem. Era uma história muito engraçada, não tinha enredo, não tinha nada. Um homem que a única certeza que tinha era as incertezas que o movia, perguntas sem resposta, inseguranças sem razão. E seu maior medo, a falta de certeza, não ter razão. Queria voar sem tirar os pés do chão. Ver além, através. Colher certezas, ouvi-las. Por isso ele andava. Caminhava pelos dias, passeava pelas horas, via o que não se vê, de olhos bem abertos, dizia o que não devia ser dito, sentia o indizível, se acreditava impossível. Tanto quanto impulsivo, expansível, imprevisível. Dava a cara a tapa. A cara, a face, a outra, o corpo, a alma e o coração. De tanto apanhar perdeu o medo. Doer, doía, mas fazia parte. Se atirava em cataratas, enquanto buscava o tédio das águas mansas. Falava de si com a destreza de um bom conhecedor. Falava. Falava quando só precisava ouvir. Buscava. Devoto de Nosso Senhor Jesus Crítico, se dizia too cool, e se morria e se matava a cada novo soluço. Nã…

Mônica

Hoje foi não foi um dia fácil, corri meio sem rumo, desacreditado, honrando compromissos que não pareciam se encaixar, seguindo o fluxo, deixando me levar. Fiz mais do que pude, falei mais do que sei, o tal peso da vida adulta. Já passa das 11, poderia escrever que estou sentado num sofá de couro, as luzes da cidade sobre mim, uma taça de vinho repousando sobre minhas pernas, uma fotografia perfeita para textos perfeitos. Mas minhas polaroides são borradas. Estou rencostado meio de lado, as costas doem, virei chácaras de café, relutante em dormir por essa noite, e te encontrar outra vez. Não vou mentir das vezes que pensei em você, das muitas vezes que meu coração saltou garganta afora ou ver seu nome cintilando no vidro fosco, e todo o circo que armei tentando agradar. Eu não sei onde quero chegar. Existe uma vida antes e outras dez depois de nós, ainda assim você não sai do meu sentimento. Ah, piegas, coisa de escritor romântico, que busca palavras bonitas para o ser amado. Coisa n…