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Lírico

Era de oito a oitenta. Vivia de extremos. Passava os dias por um fio. Evitava meio termos. Por detrás do eu lírico escondia meus vícios. Negava o natural. Fazia de tudo normal, normal demais. Afastava-me de conceitos. Criava pretextos, pós textos, mas nas entrelinhas era onde me perdia. Dizia ser metamorfose ambulante. Descobri-me sem forma. Na dúvida, não me cabia, não me encaixava, não funcionava. Nas raízes, criei asas. Todo são. Tantas certezas em vão. Acordei no topo do mundo, no fosso, de ponta cabeça. Criando o medo. Criando a culpa. De tão minha já nem me cabia. Descobri-me forte. Descobri-me grande. Indefinido. E de tantas definições, falácias, um nada. Do nada, ao nada. Passou como um sopro. Ríspido e afoito. Incontinente. Híbrido. Daqueles termos, fiz os meios e  os fins. Esses se justificam e se alinham a esquerda. Espaçamento simples. Recuo. "Indivíduo sem prévias definições". Indefinições póstumas. Gosto mesmo é de gente, na mesma proporção, tanto ou mais, quanto as detesto. Tenho tesão por vidas. Distantes e aflitas. Mundos que se desenham entre os muitos paralelos e os riscos tangentes. Essa noite eu quero contar estrelas, das mais obtusas. Apagar as luzes artificiais. Deixar o mundo gritar.  Fazer amor em velocidade centrífuga inconstante. Sonhar o bastante para estar acordado. Ser levado a sério por trás do riso frouxo. Ser notado. Sem hipocrisia.

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