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Ao portador

Oi moço,

Boa noite, não sei se por aí ainda é noite, ou se já é dia. Não faz diferença, li mais cedo que a noite é a mesma coisa que o dia, com uma tonalidade diferente, e a escuridão sequer é uma perda de visibilidade, é apenas uma mudança de tom.
Há tempos esperava este encontro, essas palavras vinham sendo ensaiadas noites a fio, mas sabe-se lá por qual razão só agora dedico estas linhas ao senhor. Bem, acho que temos a mesma idade, então poderia poupar os formalismos?! Somos tão íntimos que isto se faz desnecessário, e torna esse momento ainda mais constrangedor. 
Não, você não me conhece, ao menos não que eu saiba. Na verdade por mais íntimo que eu me sinta, eu também não o conheço. Só sei de suas palavras cruzadas, suas fotos borradas, suas meias verdades, seus neologismos.
Estranharia se eu dissesse que parte de meus pensamentos tem sido habitada por você? Outro dia eu até sonhei com você. E foi tão real te ter perto de mim, ainda que por um único e breve instante.
Não sei ao certo o que estou falando, e por favor não me julgue um completo idiota por isso, eu só queria dizer obrigado pelos últimos tempos, por cada palavra, por cada mundo criado, por cada suspiro roubado. Você se tornou apenas um pedaço essencial dos meus dias.
A todo momento me confundo, não sei a quem estou escrevendo, as vezes não sei se sou eu mesmo, ou se você. Efeitos colaterais do álcool, do café, da falta de sono, do vício.
Só queria a chance de olhar em seus olhos e sentir que tudo isso é real, e fantástico.
Não, não sou um louco qualquer, talvez seja isso que tenha me tornado, mas antes que o mundo acabe novamente você deveria saber que de longe, do outro lado do mundo, ou do outro lado da rua, você se tornou responsável por estas palavras que continuo a escrever.
E se um dia o mundo girar e eu tiver a chance de olhar em seus olhos e sentir o quão real e fantástico é tudo isso, eu te darei meu sorriso e meu mais sincero abraço.

Com carinho.

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