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Roda Gigante


Não sei começar pelo verso. Meus dias parecem correr em prosa, dilacerando qualquer tipo de bom senso. Sou remendos de sentimentos. Horas e horas deitados no divã, sob análise, ainda assim, saio do plano, dessas linhas borradas. Me acostumei a errar, persistir no erro. Sou reincidente. Concerto os buracos aos poucos, amanhã, depois de amanhã, quem sabe mês que vem. Me concentrei em viver de desculpas, criando, pedindo, dando. Nunca soube muito bem como esquecer, nem como começar novos parágrafos. Um dom estilístico, essa vontade de ser etílico. Nasci falando, berrando, ainda hoje corre por entre carne e ossos uma necessidade de gritar, rachar o concreto, de ser ouvido pelo abstrato. E mesmo com as linhas óbvias, tento fazer algum sentido. Mas o mundo continua muito ocupado girando, girando, girando. E de tanto rodopiar, aprendi a ser invencível, enjoado e invisível. Silente, opaco e disforme. Aprendi a retribuir. Do nada apenas se nasce o nada, dum mundo de ilusões, toda uma vida. O suor escorre pelo rosto, se mistura entre sangue e lágrima. O pulso firme, treme forçando o drama de uma vida medíocre. E quando o mundo dorme, restando apenas os ecos de uma mente perturbada, espremida entre as paredes do quarto vazio, quem estará lá por mim, por você por nós?! Quem fingirá que tudo isso é normal?! Quando apagam-se as luzes, fecham-se as cortinas e sobram apenas as cadeiras vazias, só nos sobra esse silêncio estridente, e a realidade de que o mundo não gira a nosso favor.

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