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Alugueres





Estranho acabar assim, tão cedo, precário. A quem mais temos de enganar?

Levanto, agarro a mochila enquanto sou jogado contra a parede. Caio de costas na cama. É assim como tudo acaba. Como começa.

Nem bem cheguei, e o sino da igreja ecoa aos quatro cantos da cidade, nosso tempo acabou. Enganos, distrações e más interpretações, uma série delas. Esta noite é apenas mais um dentre tantos erros.  Ninguém coleciona tantos erros quando nós.

Ensaio um movimento para me cobrir, me toco, dou de ombros, e largo os pudores. Busco um último cigarro. Uma taça de vinho. Uma xícara de chá. Uma ventania. Abro a janela.

Quando te deixei entrar por aquela porta imaginei que seria simples lidar com isso. Quatro paredes. Uma sofá. Nós dois. Mas nada deveria ser tão simples. Construímos juntos cada rachadura no teto de vinil. Nada é tão simples. Ensaiei monólogos tresloucados, onde esbravejara seus erros, perdi noites em claro, encarei os meu erros. Maços de cigarro, jogado no sofá, vigiando seu corpo nú, seu sono aflito.

Você tentava curar minha antipatia, me tratando como fóssil, nos nossos jogos você sempre permitia que eu tivesse a razão. Era meu preço. Pagamos com moedas diferentes as ânsias que dissimulamos ao toque do despertador.

Eu pago mais caro. Logo, eu posso mais. Eu quero mais. Daí nosso tempo acaba. Você me acaricia os cabelos, roça seus lábios nos meus, salta da banheira e some. Sem lenço, documento, choro, nem vela. Eu fico. Desgrenhado. Desenhando sete vidas para nós. Matutando o que você faz quando ninguém está olhando, quando não estou te olhando.

Você me assiste. A toda manhã. A toda hora. A cada samba, cada passo, você sabe onde estou, sabe pra onde vou depois que tudo isso acabar. Quantos já deitaram aqui? Quantos mais deitarão? Qual seu nome, telefone, tipo sanguíneo... As perguntas que prefiro trancar no corredor, antes de te expulsar da minha vida.

Não sou do tipo que desperdiça tempo, ou sentimentos, acostumei-me a despedaçar apenas dinheiro, e preservar a alma.

Quem sabe você tenha mesmo razão quando diz que minhas expectativas são altas, e que eu perderia menos dinheiro se trocasse o sofá pela cama. Não consigo evitar gastar os cigarros, o vinho, as estrelas. Tudo parece querer dizer algo. Sua sombra na parede, parece querer dizer algo. Seus olhos, seu corpo, sibila um meio tom quase inaudível.

Dessa vez eu só preciso fechar a porta, pagar pelas horas, e seguir o roteiro. E à noite ensaiar novos  monólogos, só meus, e aceitar que tantos outros fantasmas podem ocupar o desenho do meu corpo no sofá.

Fique com a chave. Quando sair, bato a porta.

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