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Teorema



Se tem uma coisa que aprendi ao longo da vida é que não é preciso terminar um livro para começar um novo.
As melhores histórias começam pelo fim, talvez seja esse o segredo, perceber que no fim, nada mais importa, nada mais pode ser feito, ou dito, ou escrito, ou sentido. No fim resta um livro repleto de páginas em branco, esperando ser preenchidas. 
O segredo é se dar conta que mais relevante que o fim, é o meio, a jornada, porque como essa história começa qualquer um pode saber, como termina já não importa. 
Então aquele famoso filósofo estava mais uma vez errado, os fins não justificam os meios, estes se justificam por si só. 
Maquiavel, segundo o pai dos burros. Os burros que estão poupando espaço pro que realmente importa. Ah… os burros. 
Até gostaria de ter grande histórias, memórias de uma vida plena, anos vividos intensamente, mas meu mundo gira mesmo é aqui dentro. Depois da meia noite, quando as luzes se apagam, a cidade dorme, e os barulhos do dia cedem espaço aso ruídos da mente. 
Entre 4 paredes, xícaras de chá e canetas falhas, parece que nesse mundo ganho um último sopro de vida, exerço controle do que me escapa, só não sou capaz de domar a letra tremida. 
Não é culpa minha essa mania verborrágica, esse instinto de desenhar nuances de personagens saturados em alto contraste, buscar esconder nas entrelinhas o que arranha.
Sou dado a esses clichês, auto reverso, uma onda cíclica de repetições, caindo e fingindo cair, voltando a esse lugar seguro, padecendo.
Eu queria falar dos livros que li, os discos que ouvi, os filmes que vi, as paixões que me tiraram o fôlego, a paz que não tive, as noites de sono em claro, coisas que renderam péssimas poesias, transcritas em carvão, convertidas em prosa barata. 
Queria falar das coisas que fiz, das que me arrependi, das que deveria ter feito, mas tudo isso parece tão distante, não se parece em nada comigo, porque as coisas simplesmente mudam, e a vida não para pra ninguém. E repentinamente você tem de prestar contas.
Numa coisa eu acertei, mesmo falhando a todo instante, eu tentei me manter fiel. Tentei ser filtro, e não esponja como de costume. 
É meus amigos, as coisas mudaram ao longo das últimas horas, o que dizer então das últimas setecentas mil e oitocentas horas? 
Já nem me lembro dos anos que giram bissexto.
E todas aquelas resoluções baratas de fim de ano, pendentes acumuladas ao longo de 80 noites de abraços falsos, sorrisos forçados, e muitas ondas puladas. Todas as coisas que deixei pelo caminho.
Restam tão frustradas. E aqueles votos de paz, amor, dinheiro, saúde e esperança, tudo pra dar e vende? E não deu?!
Quem sabe na próxima, se existir algo mais depois de tudo isso. Ou quem sabe eu comece a viver novamente no próximo segundo, ainda me restariam 60 segundos até o fim, 1 minuto para fazer tudo que já não queria fazer. 
Não sei, costumava saber, agora nem mais, já passou o tempo e estar por vir o depois, que já não virá. 
Sobra de mim, alguns poucos ossos ruídos, e tudo aquilo que fui, amei, pensei, e esse último respiro. Seria injusto dizer que a vida não passa de uma brincadeira fulgáz. Mas não me aterei a justiças, Não agora. 
Dizem que apesar dos pesares, no final tudo acaba bem. Isso não se parece em nada com final de novela de Manuel Carlos. A vida não é uma novela, tampouco a morte.
Mas quem se importa com o final?

“Você precisa de coragem para fazer qualquer coisa. A mesma coragem que precisa ter para fazer um teste ou fazer escolhas, ou escrever um poema quando o último que fez ficou uma merda, é a mesma coragem para sair a noite sem ficar apavorado. Se tiver medo você nunca vai viver. Você precisa de coragem para viver." Abigail Terttelin

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