Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Março, 2014

Cícero

Sobretudo, tenho tanto a dizer. A página em branco chama, a caneta rolando por entre os dedos. Algo de impossível. Noutro dia me disseste que escrevia para não morrer. E quanto a mim? Não soube dizer. As vezes, os propósitos são os mesmos. De propósito a gente entende. Ora, ora. Vai ver é o inverso do que foi dito. Escrevo para matar. Fazer morrer essas pequenas células cadentes, renascendo das tintas. Escrevo para não esquecer. Cartas, bilhetes, telegramas, contos, postais. 140 caracteres. Perdoe meus neologismos e desaforismos. Existem razões. Há de ser sentido. Não há?! Sempre quis nunca precisar. Mas quem escolhe fazer um buraco no meio do céu?! Por entrelinhas, entre medos, entrementes. Devo ter perdido algo no meio do caminho. Pode ter sido uma pedra. Enceno neuroses, vejo vultos, um borrão no espelho trincado. Um reflexo. Vai. Escreve. Se dobra no papel. Espreme as águas. Fecha os olhos. Escreve. Inspiração não é como feijão, não tem todos os dias. Sobre tudo isso, eu tenho ta…

Plástico Metal

Daqui da janela do quinto andar já vi a banda passar. Já ouvi todas as canções de amor. Homens, mulheres, viados, sapatãs, indecisos, curiosos, ansiosos, de todas as raças, cores e ardores. Tudo junto, no domingo a caminho da praça, mostrando a pele pelo rasgo da calça. A jardineira já passou. A colombina nem chegou. O pierrot foi quem ficou. Vestígios de dignidade espalhados pelas esquinas banhadas de mijo. Me encolho, esquivando dos corpos suados, cabelos molhados, das bocas salientes, dos rabos excitantes. Mas é carnaval. We are carnaval. É pau, é pedra, é o fim do caminho. São as águas de março. Paredões de sons, fluidos e cheiros. O coração vai na boca, latindo alto, na batida do asfalto, sendo ouvido dos fundos do camarote. Segura. Protege. Não pega. Não faz. Se agarra. Se joga. Foge daqui. Escorrega dali. Me encontra aqui. Quanta estrela decadente. Toda essa gente careta, carente e covarde, se usando, e usando. Máscaras que já não são para esconder, por quatro dias, quatro par…