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Curta-metragem


Ainda não é meio dia. Acho. Com a certeza de um garoto suburbano criado entre asfalto, lama e concreto. Me perdi enquanto viramos refém das horas. Um senhor do tempo que não sabe se vai chover. Enquanto arrumo as malas enceno para as paredes cenas de um filme doutra era. Seus olhos percorrem em linhas retas as frases feitas das quais eu tanto fujo. Recolho o que sobrou em mim, lápis, caneta, uma dúzia de guardanapos rabiscados. E uma vida inteira pelas costas. Nunca escondi meu talento para ser invisível. Balbuciava em silêncio o roteiro de um curta metragem barato, independente, fadado a atingir meia dúzia de pederastas em salas de cinema pirata, de arte. Nunca escondi a existência de um infinito particular, uma realidade paralela de eus coadjuvantes, esbarrando entre si. Olhos de talvez. Plantei em mim essa vontade louca de sair na rua. Abraçar a moça bonita da padaria. Beijar o primeiro desconhecido que cruzar a esquina. Fazer uma declaração de amor pra ninguém. Sorrir para as estrelas. Absolve-las de toda a culpa. Sentir o infinito num instante. Vai entender as razões para deixar de fazer o que pra gente já tanto faz. Percorro o apartamento entulhado, bebericando os últimos goles de chafé, dramatizando, te roubando por um último minuto. As coisas no mundo da imaginação sempre parecem mais minhas, mais próximas. Um fim em si mesmo. Como se bastasse um plano aberto, uma bela fotografia, e uma trilha sonora old school pra nossa história virar realidade. Talvez eu esteja cansado dos mesmos silogismos. Talvez seja preciso um pouco mais, muito mais. Outros filmes, outros curtas, outros longas, outros planos. Caí na monomania, e meu roteiro só enxerga seus olhos. As mesmas horas. Todos os mesmos dias. Aquele sopro de vida que dá e que passa. Essas vozes gritando nas entrelinhas dos ponteiros. Vai ver que é por isso que eu te escrevo. A certeza que no papel a história se faz real. Isso é perigoso. Nunca sabemos o quanto estamos dispostos a arriscar deixar as ondas baterem em nosso castelo de areia, enquanto a neve cai em nosso teto de vidro. Estou indo embora. E você não me pede pra ficar.


Comentários

  1. "você não me pede pra ficar".

    essa doeu... =P mas esse sentimento é muito humano, muito familiar.

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