Pular para o conteúdo principal

Plástico Metal



Daqui da janela do quinto andar já vi a banda passar. Já ouvi todas as canções de amor. Homens, mulheres, viados, sapatãs, indecisos, curiosos, ansiosos, de todas as raças, cores e ardores. Tudo junto, no domingo a caminho da praça, mostrando a pele pelo rasgo da calça. A jardineira já passou. A colombina nem chegou. O pierrot foi quem ficou. Vestígios de dignidade espalhados pelas esquinas banhadas de mijo. Me encolho, esquivando dos corpos suados, cabelos molhados, das bocas salientes, dos rabos excitantes. Mas é carnaval. We are carnaval. É pau, é pedra, é o fim do caminho. São as águas de março. Paredões de sons, fluidos e cheiros. O coração vai na boca, latindo alto, na batida do asfalto, sendo ouvido dos fundos do camarote. Segura. Protege. Não pega. Não faz. Se agarra. Se joga. Foge daqui. Escorrega dali. Me encontra aqui. Quanta estrela decadente. Toda essa gente careta, carente e covarde, se usando, e usando. Máscaras que já não são para esconder, por quatro dias, quatro paredes, quatro patas. Não escondem, escancaram, permitem. Amanhã o barulho cessa. O ano começa. E todas aquelas resoluções empurradas com a barriga, dobradas em guardanapo no fundo do bolso. Amanhã estamparão os jornais. Olho pra trás, encontro seus olhos, me jogo em seu corpo duro. Viveria tantos outros carnavais dentro de seus abraços. Mas se você é meu pierrot, por onde anda minha colombina? Chorando a morte de outra camélia. Outro galho quebrado. Triste por não ter um mundo todo seu, por não ser tão bonita quanto a jardineira, duvidando da morte da inimiga. Puro recalque. Vou ficar mais uns segundos. Estou completa e perdidamente entregue. Voz, batida, corpo e violão. Todo carnaval tem seu fim, e nossas cinzas ficarão espalhadas na avenida até o próximo verão.

Comentários

  1. que linda e amarga síntese do carnaval. esse final foi de fechar caixão: "e nossas cinzas ficarão espalhadas na avenida até o próximo verão".

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Há tudo a perder. Sincericide-se

Postagens mais visitadas deste blog

Mônica

Hoje foi não foi um dia fácil, corri meio sem rumo, desacreditado, honrando compromissos que não pareciam se encaixar, seguindo o fluxo, deixando me levar. Fiz mais do que pude, falei mais do que sei, o tal peso da vida adulta. Já passa das 11, poderia escrever que estou sentado num sofá de couro, as luzes da cidade sobre mim, uma taça de vinho repousando sobre minhas pernas, uma fotografia perfeita para textos perfeitos. Mas minhas polaroides são borradas. Estou rencostado meio de lado, as costas doem, virei chácaras de café, relutante em dormir por essa noite, e te encontrar outra vez. Não vou mentir das vezes que pensei em você, das muitas vezes que meu coração saltou garganta afora ou ver seu nome cintilando no vidro fosco, e todo o circo que armei tentando agradar. Eu não sei onde quero chegar. Existe uma vida antes e outras dez depois de nós, ainda assim você não sai do meu sentimento. Ah, piegas, coisa de escritor romântico, que busca palavras bonitas para o ser amado. Coisa n…

Metonímias e Aliterações

Passeio pelas estações ouvindo grunhidos repetitivos semi nocivos, até que me pego cantarolando trechos de uma música qualquer daquela dupla pop que ninguém lembra o nome, o rosto, ou a poesia, não que fizesse alguma diferença. Hoje eu acordei olhei no espelho e não me vi. Horas a fio, o celular ferve por entre as mãos, silencioso e inquieto. Ensaiei centenas de maneiras de dizer um simples Hello, i want you let me jump in your play, mas me perdoe se eu não sei jogar, ou se talvez o saiba além das regras que insisto em (não) quebrar. Um joguinho é até divertido quando você está por perto. Penso que irei dobrá-lo, deixar me bater, vamos lá, querido, fique mais um pouco. I'll get him hot, show him what I've got. Revezo em encarar aqueles olhos, desejar aquela boca, e decifrar todos os teoremas fundamentais do universo. E daí que minh'alma segue num loop involuntário, divagando em diferentes infinitos... 
I need a hit, baby gimme it, it's dangerous I'm loving it, balb…

Alumínio

Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quere…