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Mostrando postagens de Abril, 2014

Curta-metragem

Ainda não é meio dia. Acho. Com a certeza de um garoto suburbano criado entre asfalto, lama e concreto. Me perdi enquanto viramos refém das horas. Um senhor do tempo que não sabe se vai chover. Enquanto arrumo as malas enceno para as paredes cenas de um filme doutra era. Seus olhos percorrem em linhas retas as frases feitas das quais eu tanto fujo. Recolho o que sobrou em mim, lápis, caneta, uma dúzia de guardanapos rabiscados. E uma vida inteira pelas costas. Nunca escondi meu talento para ser invisível. Balbuciava em silêncio o roteiro de um curta metragem barato, independente, fadado a atingir meia dúzia de pederastas em salas de cinema pirata, de arte. Nunca escondi a existência de um infinito particular, uma realidade paralela de eus coadjuvantes, esbarrando entre si. Olhos de talvez. Plantei em mim essa vontade louca de sair na rua. Abraçar a moça bonita da padaria. Beijar o primeiro desconhecido que cruzar a esquina. Fazer uma declaração de amor pra ninguém. Sorrir para as es…

Brócolis

Você me pede outra história baseada em fatos reais. Dou de ombros e finjo não reparar no sorriso meio solto escapando pelo canto da boca. Nem bem chegou, revira as gavetas, rabisca as paredes, empilha os dados, perfura o silêncio. E eu que pensava ser só meu. - O que você quer? - Brócolis. Você aumenta o rádio, segue o som, finge não me ver. O farol se acende. A rua em movimento. Você levanta. Te seguro pelas mangas, quase em oração. Volta aqui, deita aqui, deixa eu te proteger, deixa eu te esconder. Não importa aquilo que criamos. Não importa o que fica do outro lado da porta. Você me encara com olhos de poeta pós-moderno, e de repente se torna tão difícil soletrar seus pensamentos. Deixa eu plantar uma muda de sossego nessa mente barulhenta. Deixa eu pintar o teu nariz e vamos brincar de ser feliz. Deixa as luzes te guiarem até em casa. Eu não vou tentar te consertar. Quando você irá cair em si? Quando você irá cair em mim? Mas você só ri das minhas histórias aleatórias, dos meus …

Clichê

Trinta segundos de monólogo roteirizado. Conversas de elevador, cada ditongo pronunciado vagarosamente em hiatos. Sílabas, suspiros, arrepios, sorrisos amarelos emoldurados em polaroides. Respostas sem perguntas, sem respostas. Palavras lançadas a esmo. Letras miúdas a serem visualizadas. Cuida dos teus desejos, eles costumam  brincar de realidade... Realidade, onde sonhos viram pesadelos. Quem há de controlar o inconsciente? Não é isso que tenho feito todo esse tempo? Algo mudou? Algo continua igual? Não tente entender. Fiz coisas fora de mim, coisas que seria capaz de repetir, se quisesse. E quero. Insisto. Repito. Quero você preso a um clichê. Coisas certas, razões erradas. Coisas erradas, razões certas. Te dou a única coisa que me falta, tempo.  Dancei tango no teto. Limpei os trilhos do metrô. Cruzei o mapa. Tirei a Terra de órbita. Desfoquei imagens. Tracei linhas borradas. Construí cidades, lendas urbanas, contos aleatórios, meias verdades, mentiras inteiras. A fábula de um ho…