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Mostrando postagens de Maio, 2014

Canção pra você viver mais

Ele gostava de ouvir a chuva e de dormir com a cabeça apoiada no meu colo. Eu gostava de desenhar futuros contra o vidro embaçado da janela, como um arquiteto do inesperado, e de passar os dedos pelos cabelos dele. De vez em quando, nossos gostares coincidiam e passávamos madrugadas dividindo estes pequenos silêncios, entremeados pelos suspiros pesados dele e meus cochilos ocasionais – luxo a que os dias longos me davam direito.  De vez em quando, nestas noites acordadas, fazíamos amor. Ele enterrava o rosto no meu colo, o jeito dele de me dizer que estava acordado, e eu estendia o limite das minhas carícias dos seus cabelos até a base da coluna – ele não conseguia conter os arrepios. Não demorava muito até estarmos nus sob os cobertores, dançando em ritmos descompassados e, de alguma forma, complementares. A coisa toda começou numa noite que ele chegou em casa com os olhos nublados. Tentou disfarçar, alegou cansaço, mas a expressão dura e os olhos o traíram.

Rebentação

Maio já está no final, o que somos nós afinal? O que somos nós, nada além de nós. Emaranhados. Embaraçados. Embaçados. Fecho os olhos pra parar o tempo. Volto ao ponto em que esquecíamos nossos finais. Abro a gaveta, mudando as meias de lugar. Meias certezas. Meias verdades. Meias memórias. Meia vida. Meia taça. Giro ao redor, aparando as gotas que encharcam o teto. Gotas. Pingos. Lágrimas. Água ritmada, sincronizada. A chuva ainda cai, inunda. É maré cheia. As ondas brigam entre si, escoando as mágoas da última calmaria. O mundo gira. O prato gira. Pescoço vira. Olho revira. O prato para. O alarme apita. O silêncio volta. O silêncio grita. Outra vez. Coisas fora do lugar. Me apego a um livro qualquer. A garrafa, o papel, a caneta, em mãos empunhados. Armamento de guerra. O mar imerso em ressaca. Começo a me sentir em casa. De volta à zona de rebentação. Ergo um brinde a todas as palavras não pronunciadas. Esmago o coração e esbanjo promessas tolas de um futuro breve. Um amor maior. …

Imensuravelmente

Se hoje eu te dissesse que foi amor você ainda aceitaria? Olhando dentro dos seus olhos, passando por todas as memórias esquecidas. Lembro dos dias, horas e meses. Lembro dos anos. Marcas na pele. Um nome. Dois pássaros. Sonhos a dois. A sós. Escrevo em prosa, porque minha poesia se esvaiu. Pela sarjeta, por rios e mares, por teus olhos, no dia em que te vi repousar os ombros sobre mim. Olhando de fora perco-me das paralaxes. Agarro-me às tuas molas, às curvas do teu corpo, ao contorno dos teus olhos. Cigana obliqua e dissimulada. Capitu. Pagu. Monalisa. Tal qual, paralisa. Meu sobrenatural é o teu normal, teu simples é o meu absurdo, não há ciência aqui pra te resumir. E a cada novo sol, a cada nova chuva, estaremos sempre juntos, pelo segundo enquanto durar o infinito. Sempre que te fitar, lembrarei que já amei o mar.

À Mariana.

Nosotros

É desse jeito assim tão cru, tão meu que tento dizer o quanto gosto de você. O quanto te espero, noite após noite, dia após dia. Que meu coração pia só de pensar, que dirá em ver. É desse jeito, torto e afoito, que tento fazer você ficar por mais um minuto, quem sabe assim você não acaba ficando. Nós dois, retratos e recortes de um futuro e um passado. Sintonias delicadas, mal captadas. No escuro dos seus olhos vejo resquícios do menino que se perdeu, a aspiração do homem que desejo. E talvez, nessa teimosia, a vida nos recompense. Um beijo, ou dois. Uma noite, ou três. Você é como beija-flor em vôo. Me aproximo, e você voa pra longe.