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Canção pra você viver mais



Ele gostava de ouvir a chuva e de dormir com a cabeça apoiada no meu colo. 
Eu gostava de desenhar futuros contra o vidro embaçado da janela, como um arquiteto do inesperado, e de passar os dedos pelos cabelos dele. 
De vez em quando, nossos gostares coincidiam e passávamos madrugadas dividindo estes pequenos silêncios, entremeados pelos suspiros pesados dele e meus cochilos ocasionais – luxo a que os dias longos me davam direito.  
De vez em quando, nestas noites acordadas, fazíamos amor. Ele enterrava o rosto no meu coloo jeito dele de me dizer que estava acordadoe eu estendia o limite das minhas carícias dos seus cabelos até a base da coluna – ele não conseguia conter os arrepios. Não demorava muito até estarmos nus sob os cobertores, dançando em ritmos descompassados e, de alguma forma, complementares. 
A coisa toda começou numa noite que ele chegou em casa com os olhos nublados. Tentou disfarçar, alegou cansaço, mas a expressão dura e os olhos o traíram. Eu era excepcionalmente boa em ler seus olhares. Muda, o observei largar na mesa de jantar um papel abarrotado, que ele trazia apertado na mão momentos antes. Ele o encarou com repulsa e tristeza, como se aquele pedaço de papel carregasse uma sentença de morte ou algo pior. 
Tentei inquiri-lo, acalmá-lo, mas ele repeliu rispidamente todas as minhas aproximações. Mal jantou, tomou um banho demorado e largou-se na cama, sem dizer palavra alguma, o rosto inteiramente coberto pelo travesseiroPor mais que eu entendesse que algo muito sério deveria ter acontecido, não consegui conter uma onda de irritação com a rudeza com que ele me tratouTomei meu banho, tirei uma camisola da gaveta e já saía do quarto, decidida a dormir no sofá, quando ele ergueu um pouco o travesseiro e pude entrever um de seus olhos. 
 Ei. 
Exasperada, me virei para ele. 
 O que você quer?  perguntei, seca. A maturidade não me deu a capacidade de disfarçar minhas emoções, infelizmente. 
 Silêncio.  
Soltei um suspiro de impaciência e fiz menção de sair do quarto, mas ele me chamou de volta: 
 Não...  ele ergueu a cabeça.  O seu... Eu quero o seu silêncio... 
 O quê?  estanquei, confusa. 
 Você poderia ficar aqui... Em silêncio, mas comigo?  o tom de súplica na voz dele me fez encará-lo longamente, com uma das mãos ainda no trinco. 
Com um suspiro, fechei a porta, desamarrei meu robe e subi na cama. Recostei-me contra a janela – chovia – e estendi uma das mãos para ele. Ele a agarrou com um ímpeto assustador e eu, por impulso, a apertei. Prendemos a respiração por alguns segundos até que ele se lançou sobre meu colo, abraçou-me pela cintura e escondeu o rosto entre minhas pernas. Achei que ele fosse cair no choro ali mesmo, mas sua respiração se acalmou e ele adormeceu. 
Foi assim que percebi que todos meus silêncios seriam dele, dali em diante. Começamos a dividir aqueles pequenos momentos de paz imperturbável, feitos de silêncio e chuva. Não aconteciam sempre, mas não precisávamos dizer nada para que acontecessem. Era um entendimento mudo, uma combinação entre o nublado dos nossos olhos e do céu.  
Foram estas noites de observá-lo dormir que me fizeram amá-lo.  
Transformamos o silêncio em uma canção e eu continuei a cantá-la por muitas noites, mesmo que seu preço fossem as marcas fundas e arroxeadas sob meus olhos, que faziam as pessoas questionarem minha saúde. Mesmo que eu o notasse cada dia mais leve, seu peso contra minhas pernas diminuindo, sua aparência cansada, continuei a cantá-la.  
Mesmo que a resposta estivesse no papel roto que ele amassara e escondera de mim, que ele se recusasse a me dizer qual o problema e onde passava todas as tardes – porque no fundo eu sabia de tudo –, continuei a cantar aquela canção. Porque era uma prece. Uma súplica. Um remédio.  
Uma canção pra que ele vivesse mais e assim nossos pequenos silêncios nunca se calassem. Eu continuo a cantá-la até hoje.  

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