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Rebentação


Maio já está no final, o que somos nós afinal? O que somos nós, nada além de nós. Emaranhados. Embaraçados. Embaçados. Fecho os olhos pra parar o tempo. Volto ao ponto em que esquecíamos nossos finais. Abro a gaveta, mudando as meias de lugar. Meias certezas. Meias verdades. Meias memórias. Meia vida. Meia taça. Giro ao redor, aparando as gotas que encharcam o teto. Gotas. Pingos. Lágrimas. Água ritmada, sincronizada. A chuva ainda cai, inunda. É maré cheia. As ondas brigam entre si, escoando as mágoas da última calmaria. O mundo gira. O prato gira. Pescoço vira. Olho revira. O prato para. O alarme apita. O silêncio volta. O silêncio grita. Outra vez. Coisas fora do lugar. Me apego a um livro qualquer. A garrafa, o papel, a caneta, em mãos empunhados. Armamento de guerra. O mar imerso em ressaca. Começo a me sentir em casa. De volta à zona de rebentação. Ergo um brinde a todas as palavras não pronunciadas. Esmago o coração e esbanjo promessas tolas de um futuro breve. Um amor maior. Menor. Daqueles que a gente carrega no bolso. Ou que caiba na alma. Algum que mantenha nossos desejos na mala ao lado da porta. Prontos pra partir. Me juro um amor, algum que me caiba, ao menos. Faço meu melhor. Você não se deixou ficar. Alterno verdades e sarcasmos, mas ainda lanço pro lado meu olhar de palhaço.

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