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Avenidas


Minha cabeça está desorganizada. Dá voltas e mais voltas. Um looping randômico constante. Preencho minhas horas pra não ter de pensar, não ter de sentir. A qualquer momento tudo estará de volta. Eu perderei o controle. O medo é meu fiel escudeiro, companheiro de vida. Ando em círculos, percorro as mesmas avenidas, encaro os mesmos letreiros, as mesmas velhas postagens. Campanhas de liquidação do verão passado. Me esforço pra lembrar o que fiz no verão passado, um riso amuado me escapa. Cruzo os braços, numa tentativa vã de proteger-me do sopro de vento frio que risca minha pele. Arrisco mais alguns passos e sigo pela fina trilha de lama e folhas, a única que por suas nuances difere de um todo. Recolho meias verdades, verdades e meia, que já desisti de entender. Repito a mim mesmo, em tom de provocação, não sou rebelde, eu tenho causa. À beira do abismo aguardo que me cresçam asas. A frustração me abate pelo estômago, fazendo com que a cada contração eu acredite mais e mais no que de mim reverberou. Eu tenho causa, repito. Repasso as loucuras que faço dia após dia, infantilidades para esconder os efeitos colaterais de uma vida vazia. Conversas aleatórias. Papo de botequim. Ruídos de carro. Nuvens carregadas de cigarro. Esta cidade se tornou tudo que sempre sonhei, quanto ainda falta para se tornar um lar?! Deixo outro ônibus passar, como se com ele passasse minha dor. Nasci com esse dom, facilmente ludibriável. Minha maior aspiração na vida sempre foi ser feliz. Mas afinal de contas o que realmente é levado em consideração? Quanto de nós deixamos para trás? Talvez se eu deitar aqui, só por alguns segundos, e apenas fechar os olhos, talvez a maré lave minh'alma e leve o que há de mal para longe dos olhos.

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