Pular para o conteúdo principal

Avenidas


Minha cabeça está desorganizada. Dá voltas e mais voltas. Um looping randômico constante. Preencho minhas horas pra não ter de pensar, não ter de sentir. A qualquer momento tudo estará de volta. Eu perderei o controle. O medo é meu fiel escudeiro, companheiro de vida. Ando em círculos, percorro as mesmas avenidas, encaro os mesmos letreiros, as mesmas velhas postagens. Campanhas de liquidação do verão passado. Me esforço pra lembrar o que fiz no verão passado, um riso amuado me escapa. Cruzo os braços, numa tentativa vã de proteger-me do sopro de vento frio que risca minha pele. Arrisco mais alguns passos e sigo pela fina trilha de lama e folhas, a única que por suas nuances difere de um todo. Recolho meias verdades, verdades e meia, que já desisti de entender. Repito a mim mesmo, em tom de provocação, não sou rebelde, eu tenho causa. À beira do abismo aguardo que me cresçam asas. A frustração me abate pelo estômago, fazendo com que a cada contração eu acredite mais e mais no que de mim reverberou. Eu tenho causa, repito. Repasso as loucuras que faço dia após dia, infantilidades para esconder os efeitos colaterais de uma vida vazia. Conversas aleatórias. Papo de botequim. Ruídos de carro. Nuvens carregadas de cigarro. Esta cidade se tornou tudo que sempre sonhei, quanto ainda falta para se tornar um lar?! Deixo outro ônibus passar, como se com ele passasse minha dor. Nasci com esse dom, facilmente ludibriável. Minha maior aspiração na vida sempre foi ser feliz. Mas afinal de contas o que realmente é levado em consideração? Quanto de nós deixamos para trás? Talvez se eu deitar aqui, só por alguns segundos, e apenas fechar os olhos, talvez a maré lave minh'alma e leve o que há de mal para longe dos olhos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gatilho

Aí está a história de um homem. Era uma história muito engraçada, não tinha enredo, não tinha nada. Um homem que a única certeza que tinha era as incertezas que o movia, perguntas sem resposta, inseguranças sem razão. E seu maior medo, a falta de certeza, não ter razão. Queria voar sem tirar os pés do chão. Ver além, através. Colher certezas, ouvi-las. Por isso ele andava. Caminhava pelos dias, passeava pelas horas, via o que não se vê, de olhos bem abertos, dizia o que não devia ser dito, sentia o indizível, se acreditava impossível. Tanto quanto impulsivo, expansível, imprevisível. Dava a cara a tapa. A cara, a face, a outra, o corpo, a alma e o coração. De tanto apanhar perdeu o medo. Doer, doía, mas fazia parte. Se atirava em cataratas, enquanto buscava o tédio das águas mansas. Falava de si com a destreza de um bom conhecedor. Falava. Falava quando só precisava ouvir. Buscava. Devoto de Nosso Senhor Jesus Crítico, se dizia too cool, e se morria e se matava a cada novo soluço. Nã…

Metonímias e Aliterações

Passeio pelas estações ouvindo grunhidos repetitivos semi nocivos, até que me pego cantarolando trechos de uma música qualquer daquela dupla pop que ninguém lembra o nome, o rosto, ou a poesia, não que fizesse alguma diferença. Hoje eu acordei olhei no espelho e não me vi. Horas a fio, o celular ferve por entre as mãos, silencioso e inquieto. Ensaiei centenas de maneiras de dizer um simples Hello, i want you let me jump in your play, mas me perdoe se eu não sei jogar, ou se talvez o saiba além das regras que insisto em (não) quebrar. Um joguinho é até divertido quando você está por perto. Penso que irei dobrá-lo, deixar me bater, vamos lá, querido, fique mais um pouco. I'll get him hot, show him what I've got. Revezo em encarar aqueles olhos, desejar aquela boca, e decifrar todos os teoremas fundamentais do universo. E daí que minh'alma segue num loop involuntário, divagando em diferentes infinitos... 
I need a hit, baby gimme it, it's dangerous I'm loving it, balb…

Alumínio

Sou desses que ousa dizer todas as coisas indizíveis das quais já ouvi calar. Enquadro em palavras e esquadrias fragmentos de absurdo abafados, suspirando os abusos. Nadando contra-corrente, incoerente, metendo os pés pelas mãos. Um. Dois. Três. Olhe bem para trás, e sem pensar em nada, pense no que realmente importa. Jogado no campo, fitando seus olhos, pergunto baixinho o que se ouve quando todos os ruídos calam? Quantas teses e antíteses nos trouxeram até aqui? Quantos poréns, mas, entre tantos sins e nãos, entre tantos lençóis. Desfilo em silêncio por entre a sala de jantar, desenho um cigarro no ar, chá entre as pernas, mas algo me escapa. Quão além da superfície se pode ir sem respirar? E quando tudo não passa de um segundo, quanto tempo sobra de tudo? Todas as minhas filosofias baratas, ignoradas pelos homens de bem, agora habitam nossos silêncios, justo quando o mundo pede um pouco mais de alma. Será que o tempo parou ou a gente que não viu? Nessas noites, desses muitos quere…