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Bacon


Você me pede outra história baseada em fatos reais. Dou de ombros e finjo não reparar no sorriso encabulado que me escapa pelas beiradas do rosto. Nem bem chegastes, e querendo tudo, revira as gavetas, rabisca as paredes, me toma o lençol, rasga o silêncio, faz-se dono. E eu que pensava ser todo meu.
- O que você quer?
- Brócolis com bacon.
Gira os braços, aperta os lábios, e enquanto finge não me ver, aumenta o rádio, acompanha os desenhos que o som rabisca na brisa fria de abril, e acende o farol. A rua ao redor acompanha os movimentos dos nossos dedos, como marionetes enfeitadas, bonecos de ventríloquo. Movimentos randômicos nos dão um quê excêntrico. Você esboça uma tentativa tosca e preguiçosa de evadir-se. Te seguro pelas mangas, arranho tua nuca, suspiro quase em oração.
- Fica!
- Que?
- Quero que você fique.
- Por que?
- Porque sim.
- Porque sim, não é resposta.
- Não posso.
- Por que?
- Porque não.
- Porque não, não é resposta.
As horas se calam e caminham sem que estejamos presentes em nossos assentos. Sem acentos, vírgulas, ou qualquer sinal de pontuação viva entre nós. Apenas reticências. Repito, aflito. Volta, deita aqui, deixa eu te proteger, prometo em tom de súplica, buscando me esconder nos espaços vazios das entrelinhas do meu torpor. Já não importa a vida que inventaram pra nós. Não nos importa o que abandonamos do outro lado da porta. Você me encara com olhos inquietos de poeta pós-moderno, e de repente se torna impraticável soletrar teus pensamentos. Imagino como seria plantar uma muda de silêncio nesse teu nobre desassossego. Pintar o teu nariz pra gente brincar de ser feliz. Deixar as luzes da Avenida São João nos guiarem. Prometo não tentar te consertar. Você balbucia meias palavras, ri dos meus desenhos, satiriza meus fatos irreais, com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, some em mim.

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