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Domingo


A rotina se repete, sem espaços em branco, nem enxertos. Domingos são sempre os mesmos. Polaroides das semanas passadas, tons pastéis banhados em saudades do futuro, cirandas, cachimbos, adedanhas e gnomos. É fantástico. A porta se abre e se fecha sem que você entre, sem que nada aconteça. E as possibilidades de darmos valor a este vazio híbrido tem a voracidade de uma manhã de segunda, reverberando as filosofias de quinta, lançadas à mesa na sexta sob a luz de uma constelação solitária. Já/Ainda é domingo, quase segunda, mas desta vez não seremos psicóticos em abafar pensamentos traiçoeiros que inundam nossos lençóis. Do lado de dentro, imagino a mesma cena refletida, remontada, dois corpos lançados a esmo, uma xícara de chá, ou duas, uma voz, ou duas, um caderno, ou dois, um jardim, ou dois. Nós dois. Entre nós. Nós. Geralmente me permito tais sentimentalismos baratos, desorquestrados, mas não nesta cena. Não me perdoe os clichês, jogado no sereno, escrevendo devaneios. Não durará, as orações são mais fortes, mais altas, mais bravas. Porém, não trabalho com hipóteses. O natal ainda tarda a chegar. Por descuido ou poesia, sem ressalvas em voltar a me decepcionar. Um último pedido antes de fechar os olhos e partir: traga o mundo mais perto de onde quer chegar. Abre e fecha aspas. Hoje as palavras dão preguiça e dispersão. Eu escrevo pra alguém que não lê.

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